SERÁ QUE SOU UMA TUCANA ENRUSTIDA?
Por Rafaella Soares, repórter da Revista O Grito!

Tenho uma certa vergonha de mim mesma quando simpatizo com gente de direita. No fundo é cinismo. Não sei se um certo savoir-faire, ou vontade de pertencer simbolicamente à uma turma histórica de pessoas ditas cultas e formadoras de opinião em grande parte por serem de orientação política de esquerda (Niemeyer, Burle Marx, Jean Paul Sartre, Chico Buarque de Holanda, Neruda, Gabriel García Marquez, não é mais cool se identificar com esses caras? ).

Estava o Serra ontem em Jô. Falando sobre a lei anti-tabagista aplicada em SP. Entre um e outro comentário obviamente em tom de campanha velada (como sugerir casualmente que a proibição de outdoors na capital foi sancionada pelo Kassab ), de modo geral ele foi conciso, articulado, nada engessado, desenvolto, natural mesmo.

Um paulista típico, muito provavelmente de família italiana, formado na USP, com trajetória pontuada de liderança estudantil breve substituída logo pela carreira conservadora / liberal. Um cara OK, ajustado, dentro de seu colete de lã.

A vértice radicalmente oposta de um nordestino retirante, tido como analfabeto funcional, sem um dedo, ex-metalúrgico, ex-sindicalista, sem formação acadêmica, bastante rude, um autodidata nato, talvez por isso mesmo idolatrado pelas massase um prato cheio, daquele s de pedreiro mesmo, como diria uma de suas metáforas vulgares, pros detratores de plantão. Mas dizer isso é simplista.

O cara ali falando é o governador do maior estado do país. O seu interlocutor, o apresentador do talk-show em horário nobre da maior rede de televisão da América Latina. Um chato, a bem da verdade, que constrange as pessoas de graça e se acha um erudito sem sê-lo, mas pode se dar ao luxo de falar a palavra merda na frente do governador e ganhar um sorrisinho condescendente de brinde.

Não zapeei, parei pra assistir.

O momento mais engraçado foi quando os dois simularam choque pelo discurso surreal do senador F. Collor (dá má sorte até escrever o nome desse traste) em Brasília, confrontando Pedro Simon. Uma encenação forçada, quando sabemos que suas opiniõem convergem com a do alagoano.

Também não deixou de ser piegas e até risível Serra “explicando” porque cantou um baião com Dominguinhos um show em homenagem ao mestre Luiz Gonzaga. Lembrou que seu “contato” com a cultura nordestina foi na infância, no bairro da Mooca, quando teve vizinhos migrados da região.

Confesso que um lado meu pequeno burguês prefere se identificar com um cara instruído e coeso. Outro se rebela com essa cortesia excessiva não só do reaça gordão quanto da Globo d eum modo geral.

Considerando que sou fumante, e egoísta, tenho pena de quem mora em São Paulo e vai ficar cada vez mais marginalizado quando quiser acende rum cigarro.

Tenho pena do brasileiro médio, que fica acordado até tarde, testemunhando dois sujeitos fazerem tricô disfarçado de entrevista idônea, sem ter acesso à meios de comunicação que pelo menos dê a oportunidade de avaliar pontos de vista diferentes.

Tenho medo também, de acabar minha vida inflando alguma repartição pública qualquer, ou assessorando alguém de reputação duvidosa, ou trabalhando num jornal para atender diretamente aos interesses da situação.

E não é uma questão maniqueísta, sobre ser de esquerda, de direita, vai além. É estilo de ida, é canto de sereia que pessoas ajustadas, polidas e neo liberais vendem como modelo ideal de representação.

Eu quero um meio termo, quero votar num cara preparado que não seja um escroto em busca de influência pra dar vazão à um séquito de corruptos e suas gerações posteriores.

Acho grotesco e imoral Lula chamar de imbecil quem questiona o aspecto assistencialista do Bolsa Família, mas não acho mesno pernicioso Serra confraternizar com um sanfoneiro numa feira popular na tentativa de abocanhar eleitores nas camadas populares. É tudo desestimulante e seviciado.

E pra piorar, hoje, quarta-feira, Jô Soares (esse caba deve ser parente meu, a afamília dele é da Paraíba ) reúne um quarteto de peruas pra tagarelar, cada uma com o ego mais inflado que a outra, com exceção de Cristiana Lobo, a única com propriedade ali. Mas envergam o título de jornalistas de política…

Fazer o quê??

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