ESSE CRISTO VOCÊ NÃO CONHECE
HQ nacional utiliza textos banidos pela Igreja e pesquisas históricas para contar a história de Jesus em tons naturalistas

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!, no Recife

O trunfo desta HQ nacional é tomar como tema algo tão enraizado no inconsciente coletivo, como são as histórias de Jesus, e, ao mesmo tempo, apresentar uma perspectiva nova, inédita para a grande maioria. A impressão que se tem ao ler Yeshuah – Assim Acima, Assim Embaixo é que se trata de uma obra bastante autoral. Os desenhos e estrutura do roteiro mostram que os autores defenderam com ardor suas ideias.

O livro traz a história do nascimento de Jesus pela ótica hebraica. A pesquisa para formatar o roteiro levou em consideração os chamados “evangelhos apócrifos”, textos banidos da versão oficial da Bíblia após o concílio de Niceia. O livro traz uma longa introdução, escrita pela pesquisadora e professora Júlia Bárány Yaari, que foi uma das responsáveis por dar veracidade histórica à HQ. Nesses textos banidos, estão conceitos que vão de encontro à muitos dogmas do cristianismo atual.

Yeshuah, por exemplo, dá destaque à Maria Madalena, tida em alguns textos como uma das mais fieis discípulas de Jesus, e não uma prostituta coadjuvante. Apesar de breve, sua presença na HQ é marcante e demonstra personalidade. Falando nos personagens, todos eles são escritos no seu nome original, o que gera um pouco de dificuldade de puxar de memória nomes tão comuns como Maria (ficou Miriah), José (Yoshanah) e Belém (Bet Elem). Suas feições também estão longe do estilo europeu-galã, mostrando todos como hebreus do Oriente, com traços rústicos, como eram na realidade.

No final do livro, um glossário dá conta de explicar toda essa nomenclatura. Esta foi apenas uma das muitas opções do autor em tornar o livro uma experiência radical de roteiro e texto. Comparativamente, foi o mesmo que Mel Gibson fez em seu filme Paixão de Cristo, ao colocar os atores falando aramaico.

Naturalismo
Laudo Ferreira trouxe tons naturalistas nessa sua história de Jesus. Bastante fiel à suas pesquisas históricas, conseguiu transpor o cotidiano daquela época com êxito. Os diálogos também ajudam a diminuir o tom distante, pra não dizer respeitoso, que todas as obras trazem ao contar a história de Jesus. Aqui, os personagens, enfim, choram, sentem dor, gritam, suam.

As cenas do nascimento, por exemplo, são perturbadoras e demonstram a tensão vivida por Miriam ao dar à luz numa situação de perigo. Mais tarde, quando os três magos aparecem, seus desespero se acentua na possibilidade de ter seu filho raptado. Longe do exemplo tão difundido da Maria, mãe de Jesus, com uma mulher impassível diante do que acontece em sua vida, aqui ela é uma adolescente cheia de medos e em certos pontos, desespero por não saber compreender o que estava acontecendo com seu corpo. São situações verossímeis, que reforçam o fato dos personagens serem humanos e não seres iluminados. Yeshuah é deliciosa leitura por não mostrar esses personagens ligados à religião com diálogos semelhantes a um jogral escolar.

É uma visão distanciada, mas em nenhum momento, afasta a ideia de que Jesus se tratava de uma divindade e não agitador social ou algo do tipo. No livro, Jesus, ou Yeshu, no caso, também nasceu de uma virgem.

O estilo da narrativa também não segue modelos convencionais, mixando passado e presente e fazendo incursões dentro da mente dos personagens. Vai longe também nas experimentações no traço, dando aos desenhos uma função bem maior do que simplesmente um suporte ao enredo. Numa escala menor, é a mesma proposta trabalhada por nomes como Graig Thompson e David B.

A Devir fez uma edição sem muito luxo, mas que atende bem à proposta da obra. O bom é que deixou o preço barato. Laudo demorou cerca de quatro anos para terminar a HQ e teve problemas para publicar. Yeshuah iria sair originalmente pela editora HQ Maniacs, que anda tendo dificuldades em se manter fiel à sua agenda de lançamentos. Para o bem dos leitores, os direitos de publicação foram para a Devir. Um segundo volume será lançado ainda nesse semestre.

YESHUAH – ASSIM ACIMA ASSIM EMBAIXO
Laudo Ferreira e Omar Viñole (texto e arte)
[Devir, 160 págs, R$ 23]

NOTA: 9,0

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