DE OLHOS BEM ABERTOS
Viajo Porque Preciso Volto Porque te Amo, uma experiência inesquecível de imagem e poesia

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife

Em 2004, quando vi o documentário experimental Sertão de Acrílico Azul Piscina, lembro que fiquei maravilhado com o lirismo das imagens nem sempre perfeitas e aparentemente desencontradas que Karim Ainouz e Marcelo Gomes nos presenteavam num filme de cerca de 20 minutos. De imediato passei a usá-lo em minhas aulas de Linguagens Audiovisuais. A cada semestre, a revisão do filme – um estudo imagético, sem as costumeiras sonoras de depoimentos, acompanhado por músicas incidentais e som ambiente – me inspirava a repensar um monte coisa: desde uma renovação do meu olhar sobre o sertão nordestino (cristalizado em tantos filmes sobre a região, repletos de estereótipos e clichês pitorescos) até a aceitar o desafio claramente proposto da necessidade do cinema, sempre que possível, investir na renovação de sua poética. Agora, com Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo, em cartaz nos cinemas de todo o país, estou convencido de que não estava enganado. Sai da sala em estado de graça. Ainouz e Gomes nos proporcionam 72 minutos de puro encantamento. Estão presentes neste novo filme toda a engenhosidade e poeticidade do documentário de 2004, agora refinadas em uma obra que, para mim, representa um marco no cinema brasileiro contemporâneo.

Nelson Rodrigues dizia, não sem razão, que toda unanimidade é burra, mas os dois cineastas, pelo menos até o presente, estão pondo em xeque tal afirmação. Por enquanto só tenho ouvido elogios sobre o filme e vislumbro no olhar das pessoas que o vivenciaram o mesmo brilho de arrebatamento. Claro, que estamos diante de um trabalho vocacionado, sobretudo, para as sessões de arte e dirigido aos amantes do cinema experimental. Tudo bem. É na ousadia e no espaço da experimentação onde as mudanças acontecem, mas se os exibidores fossem eles próprios mais ousados veriam que estão desperdiçando uma excelente oportunidade de trazer para o grande público uma pequena obra-prima do audiovisual moderno, inclusive exibida e elogiada, no último Festival de Veneza, na Itália.

Viajo Porque Preciso… tem a marca da inspiração em cada sequência. Nele parece não existir limites para as possibilidades narrativas. Poderíamos facilmente classificá-lo como um road movie, em que um homem marcado por um amor distante – o narrador da história que nunca é visto (interpretado por Irandir Santos) – vagueia pelo interior do Nordeste e aos poucos vai reconstruindo para si e para o espectador a trajetória de sua paixão ferida. Contudo, acredito que estamos diante de um trabalho bem mais aberto e para o qual a designação prévia de um rótulo pode impedir a apreensão de seus artifícios mais instigantes, a começar pela voz em over que acompanha as imagens sem que saibamos ao certo por onde o narrador está trafegando.

Também não sabemos onde, no filme, feito a quatro mãos, está um ou outro dos realizadores. Pouco importa, Karim e Marcelo conseguiram uma simbiose perfeita de suas intenções. O filme também, paradoxalmente, sem ferir os princípios básicos de uma obra romanesca clássica, nos leva para um universo em que o texto visual e o texto narrado pelo protagonista se imbricam numa pluralidade de sensações que nos obriga durante toda a projeção a abrir mão de uma leitura superficial e a mergulhar na polifonia de ruídos e imagens. São elas que, articuladas numa superposição aparentemente aleatória, dão sentido ao entrecho e nos coloca no mesmo movimento do narrador. Um constante ir e vir ao mundo sensorial do visto e às reminiscências de uma consciência estilhaçada tanto por um amor perdido, quanto pelo questionamento das ações cotidianas, em que anotações sobre a geologia do terreno e a percepção dos detalhes dos habitantes da região são fragmentos de uma mesma dor. A dor do tempo que passa, das coisas que são esquecidas e da necessidade de seguir adiante.

Este é um filme que mais uma vez demonstra o quanto a simplicidade de uma história, a principio prosaica e até banal pode, nas mãos de artesãos habilidosos, ser alçada a uma categoria incomum enquanto expressão artística. E isto só é possível graças a uma confrontação direta aos padrões estéticos convencionais em que se busca o salto qualitativo não apenas com formalizações estéreis, mas amalgamando sentimento e poesia em cada quadro, em cada movimento de câmera, na textura das cores e na intensidade irregular da luz. Olhos atentos ao mundo e nada mais.

NOTA: 9,5

Alexandre Figueirôa é professor da pós-graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. É doutor em Cinema pela Sorbonne (França).

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