CANÇÕES DE DESPEDIDAS QUE PERMANECEM
Novo disco do Vanguart é lançado para acalmar os corações abandonados

Por Lidiana de Moraes

Não são poucos os casos na história da música, tanto brasileira quanto internacional, de homens que passam a ser donos dos corações femininos. Mas os casos mais interessantes e profundos, mais próximos de amor verdadeiro, não são os que envolvem artistas galãs que com um mero sorriso já fazem as mulheres se derreter. Os amores que realmente permanecem e por isso raros, são aqueles em que o homem tem a habilidade de falar exatamente aquilo que as mulheres querem ouvir. No quesito amante intelectual, nenhum merece o posto de maior conquistador na atualidade do que Helio Flanders, vocalista do Vanguart.

Ouça o disco
Stream | Vanguart Boa Parte de Mim Vai Embora 

Depois de um primeiro disco em que mesclava canções em diferentes línguas e que supriu a falta que o público indie brasileiro tinha por um rock and folk de qualidade, o grupo formado em 2004 em Cuiabá, volta “crescido”. Canções que antes pareciam dotadas de certa angústia juvenil, compostas por alguém que devia alimentar o próprio sofrimento ouvindo “Desolation Row” enquanto lia Baudelaire, são deixadas de lado para dar lugar a uma voz mais madura e endurecida por perdas que só vem com o tempo. Sai a melancolia, entra o sarcasmo, na medida certa, sem perder o romantismo, como na canção “Se tiver que ser na bala, vai”: “Não te opõe ao curso de mim/ eu vou te amar como um raio/ que se opôs ao curso do céu/ e sobre esse teu homem/ se tiver que ser na bala vai/ se tiver que ser sangrando vai”.
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Entrevista Hélio Flanders: “Foi doloroso e corajoso fazer este novo disco” 

O último resquício de incerteza do lugar a que pertence está presente na hispano-brasileira “Mi vida eres tu”, na qual o cantor fala sobre tudo o que qualquer pessoa gostaria de poder ouvir numa serenata escrita para especialmente para si. Interessante perceber que nesse novo trabalho, não há singles que sobressaem. Tudo funciona como uma unidade que ao ser fragmentada pode perder um pouco da nitidez. “Eu vou lá” e “Depressa” são poucas exceções, mais acessíveis, que se desprendem do grupo, como se liderassem uma tarefa de reconhecimento de um terreno árido: “eu vou lá/ se me faltam caminhos pra ficar”, canta Flanders e depois completa a destinação na outra canção: “Você diz pra eu ir depressa/ que logo estará lá/ onde você me leva/nem Deus andará…”.

“Engole (Arde mais que brasa em pele quente)” soa como um suplicar desesperado, cantado por alguém que foi abandonado justamente no momento em que mais precisava daquele outro alguém que faz questão de repudiar no sofrimento do sofredor: “Eu te levei até a praia/ eu me desfiz da minha esposa/ eu joguei fora o meu dinheiro/ fechei a porta pra um amigo/ eu só sonhei meu desengano/ eu desenhei as tuas pupilas/ e arde mais que brasa em pele quente/ você olhando pra mim”. Não bastasse a voz de Flanders nos arrebatar, o baixista Reginaldo Lincoln também canta as adoráveis “…das lágrimas” e “Onde você parou”, indissociáveis em uma saga de busca pela pessoa amada que partiu sem muita consideração para explicar o por que.

Boa Parte de Mim Vai Embora é uma obra composta por treze momentos emocionais, que passam vagarosamente como uma noite chuvosa perfeita para ser aproveitada analisando a própria solidão. E quando a noite termina, nos resta ir dormir esperando pela próxima viagem noturna isolados no nosso mundo de reflexão. Depois de ouvir non-stop essa obra biográfica, cheia de realismo, resta a pergunta: se o Vanguart consegue possuir nossa alma com um disco sobre separação, imagine como seria um disco sobre conquista? Suspiros.

VANGUART
Boa Parte de Mim Vai Embora
[Vigilante/Deck Discos, 2011]

NOTA: 9,0

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