MUDANÇA DE PELE
Mais extrovertida, disco novo de Tulipa Ruiz finca os pés no pop (mas com veia experimental)

Por Germano Rabello

Fui convidado a fazer esse texto depois de uma semana de viagens pelo interior. Assim recomecei a escutar Tudo Tanto, que de primeira não tinha me cativado. Imagino que essa volta de viagem me deixou mais aberto, mais próximo do sentimento de Tulipa Ruiz. Afinal, este disco reflete uma mudança significativa, que a fez saltar de uma vida de ilustradora/redatora e se assumir plenamente na música, fazendo shows pelo Brasil e exterior, dando entrevista, organizando sua carreira. Foi realizado em meio à turnê de Efêmera, sua elogiada estreia no mundo fonográfico.

No começo deste ano, no Jockey Clube (SP), assisti um destes shows e me surpreendeu que o repertório ainda era o mesmo de 2010. Eles não tocaram nenhuma música nova, guardando a sete chaves o repertório que comporia o disco vindouro (exceto a faixa “Cada Voz”, já bem conhecida dos fãs). Na ocasião, fiquei sabendo que Tudo Tanto já estava gravado, mas permaneceria uma grande curiosidade e poucos indícios sobre o que Tulipa faria a seguir.

Quando enfim o disco foi lançado, deu pra delinear melhor, em cada mudança e cada permanência, a personalidade de Tulipa. Mesmo fincando com força seus pés na música pop, a cantora imprime um tom experimental a várias faixas do disco. Gritando escancaradamente seus agudos mais agressivos em faixas como “Víbora” ou “Cada Voz”, ela sai da zona de conforto que marca boa parte da produção brasileira atual, evocando o trabalho de gente como Gal Costa, Yoko Ono, Janis Joplin. O que serve como um ótimo contraponto, já que sua voz é bastante melodiosa a maior parte do tempo.

Se em seu disco de estreia há uma qualidade introspectiva, mais caseira, este aqui é um pouco mais extrovertido. Soa como se tivesse sido integralmente feito pra ser tocado com uma banda. Persegue uma sonoridade pop e dançante, inclusive com a participação de Lulu Santos, rei da canção radiofônica 80’s. Algo que afasta sua carreira da tendência de “MPBização” da música jovem brasileira, em que sobram sonoridades violonísticas para todos os lados. Ainda assim, o que Tulipa faz aqui não é simples de ser rotulado.

No instrumental, é muito bem vindo o trabalho de Jacques Mathias, no arranjo dos sopros e cordas. Em “Desinibida”, seu trabalho evoca os belos e imprevisíveis sons que Rogério Duprat arquitetou para os tropicalistas nos anos 60. Outras coisas a destacar: a força do contrabaixo na ultradançante “Quando Eu Achar”, o belíssimo arranjo vocal em “Assim”. Em certo momento do disco, quando a sonoridade se ressente de mais respiros, chega uma bem vinda mudança de tom. É quando chega o momento blues de “Víbora”, um compasso mais lento e minimalista aos 45 do segundo tempo (é a penúltima faixa). Um primor, combinando a distorção da guitarra ao ritmo preciso da cozinha (baixo e bateria) e cordas dando o inesperado clima épico. Uma das composições mais carismáticas e originais do disco.

A Tulipa compositora aqui tem outras nuances. Antes, seu repertório tinha músicas mais diretas que pegavam na primeira audição, “catchy tunes”, como se diria em inglês. Pela própria temática das letras, transbordando relações sentimentais complexas, este aqui parece um novelo mais enrolado, mais misterioso. Plenamente recompensador e pop, talvez lhe seja necessário um tempo a mais pra ser degustado. Ao invés de deitar eternamente em berço esplêndido, Tulipa avança seu trabalho para novas possibilidades. Estaremos acompanhando.

TULIPA RUIZ
Tudo Tanto
[Independente, 2012]

Nota: 8,3

Foto: Rodrigo Schmidt

* Germano Rabello é músico e quadrinista.

Sem mais artigos