Rita Lee faz mistureba difícil de ouvir

Por Juliana Simon

Rita Lee é rock? É pop? É MPB? Ao longo de sua carreira, pode-se dizer que a cantora experimentou cada um desses gêneros e deixou clássicos que poderiam tocar na playlist do sessentista fã de Mutantes ao entusiasta do banquinho e violão. Em seu último disco Reza, Rita misturou tudo e mais um pouco e o resultado é um trabalho sem identidade ou força.

Dos “bons tempos”, sobra a faixa que dá nome ao CD e que virou trilha de novela das 21h. Baladinha despretensiosa, “Reza” segue o ritmo de bossa que Rita tem dado aos últimos trabalhos. Na vertente rock está “Gororoba”, que casou uma interpretação mais agressiva, guitarra e gaita; “As Loucas”, ágil, simpática e com o cativante refrão à lá Marilyn Monroe “eles amam as loucas, mas se casam com outras”; e, em menor medida, “Vidinha”. Numa pegada Leonard Cohen, “Rapaz” também é um bom destaque do álbum.

O restante do álbum mostra esquisitices que no fundo (bem no fundo) lembram o humor e deboche já famosos; vozes sussurradas, cobertas por ecos e efeitos eletrônicos de todo o tipo; e pop-chiclete e cansativo. A abertura “Pistis Sophia”, por exemplo, é um cântico religioso. Dentro da modalidade “músicas difíceis de engolir”, tem as “étnicas” “Bagdá” – uma espécie de polca (?????) com temática árabe (????) e versos bem-humorados com “tabule, esfirra, quibe, húmus, vatapá” – e “Tutti Fuditti” – que mistura iê-iê-iê com italiano e fica, no máximo, engraçadinha.

A MPB “Divagando” e a agitada “Bamboogiewoogie” têm ritmos completamente diferentes, mas se igualam pela fórmula fácil e repetitiva. A “cybernerd girl” Rita aposta em bases eletrônicas e cria as entediantes “Bixo Grilo”, “Paradise Brasil” e “Pow”. Desde o lançamento do disco, a faixa “Tô um Lixo” – uma ode à auto depreciação em ritmo simpático e com direito a “tchururu” – foi usada para justificar a aposentadoria de Rita dos palcos, anunciada em janeiro. A letra mostra uma cantora afastada do ‘sexo, drogas e rock’n’roll’ de outros tempos e nada feliz por isso.

No entanto, ao que parece, Rita não está assim tão pessimista ou de saco cheio dos shows e, em junho, disse que pretende fazer uma turnê do último CD e lançar mais um até o final de 2012. Se essas são boas ou más notícias, depois de ouvir Reza, fica difícil dizer. A Rita de Mutantes, Tutti-Frutti e dos anos 80 já não existe, mas a lenda viva de cabelos vermelhos tem história, talento e fãs para trabalhos melhores.

RITA LEE
Reza
[Biscoito Fino, 2012]

Nota: 3,8

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