ÉPICO LOSER
Drama de David O. Russel é um retrato sincero sobre a luta contra o crack, mas sua força se deve à relação conturbada de uma família desajustada e seu lutador

Por Camilo Nascimento
Da Revista O Grito!

O Vencedor é o filme do diretor David O. Russell (Três Reis), considerado por muitos como um diretor sem expressão e de trabalho pouco significativo. Neste, ele se supera e mostra um cinema de qualidade, mérito que deve ser atribuído ao conjunto da obra: elenco, roteiro e direção.

Baseado em história real, o filme é sobre Micky Ward (Mark Wahlberg), um boxeador amador que tenta alcançar o sucesso, mas que é atrapalhado pela própria família. Sua mãe Alice (Melissa Leo) é controladora e narcisista, seu irmão Dicky (Christian Bale) é um ex-pugilista que conseguiu a proeza de derrubar o grande Sugar Ray Leonard, fato que o faz ser idolatrado pela família e pela vizinhança. É ele o responsável, por insistência da mãe, pelo treinamento do irmão. Dick é na verdade, um viciado em crack que vive às custas de sua fama na vizinhaça e do irmão.

Há ainda um ambiente familiar conturbado e invasivo. A vida de Micky começa a melhorar com seu relacionamento com Charlene (Amy Adams), que o faz enxergar os problemas provocados pela sua família para sua carreira. O que acaba provocando o afastamento de Micky.

Tendo como fio condutor uma história de boxeadores e o mundo que o cerca, O Vencedor nos leva mais longe. Os elementos para fazer do filme um clichê do esporte estão lá, os mesmos presentes em filmes como Rocky O Lutador e Menina de Ouro. Os treinos, a vida difícil no subúrbio, os ringues, as derrotas que quase o fazem desistir, a superação e a redenção. Felizmente, o filme não é sobre isso.

É mais profundo, é sobre família, apoio e esperança. A história de Micky Ward e seu irmão viciado é só um pano de fundo, inserido com maestria para se retratar um drama familiar, às vezes exagerado pela falta de intimidade de Walhberg com o estilo. Ao contar a história de um pugilista que tenta antes de mais nada vencer na vida, superando obstáculos e tendo que lidar com as dúvidas sobre a integridade de sua família, David O. Russell conseguiu realizar um drama completo, cativante e que prende até o final. Tudo gira em torno de seu irmão e o relacionamento existente entre os dois. Retrata o amor incondicional e a admiração que Marky tem por Dick, apesar de todos os problemas que ele apresenta. É o amor e idolatria de um irmão mais novo pelo mais velho.

O filme começa com a filmagem de um documentário sobre Dicky, que ele pensa ser sobre sua carreira no boxe e sua luta com Sugar Ray Leonard, mais tarde descobre-se que o documentário é sobre o uso de crack nos Estados Unidos. A mãe de Mick entra como catalisadora desses problemas, protetora de Dick, não enxerga a gravidade do vício de filho e sacrifica tudo e todos para que a carreira de Micky decole, inclusive ele. É nela que se reflete toda a dor do filme, é ela que sofre e fica do lado de seu filho mais velho quando esse é preso, é ela que sofre o impacto da escolha de Micky em ter outro empresário e é ela que sofre com o afastamento dos irmãos.

É assim que O Vencedor retrata o drama familiar, de forma real. É incrível o clima de companheirismo existente, durante todo o filme, entre Micky e Dicky. Mesmo que Dicky desperte raiva por seu egoísmo, não é possível não perdoá-lo. Ele é mais vítima de um problema que ninguém quer enxergar do que causador dele.

Alice, mãe, passa pelo mesmo processo, seu erros são justificados, o que chega a justificar seus erros.  Em parte graças ao carisma da interpretação de Melissa Leo. Destaque para a atuação do “mutante” Christian Bale, sempre ótimo, um dos melhores atores da nova geração que deve receber a estatueta este ano, um reconhecimento mais do que merecido.

Apesar da superação,  no entanto faltou ousadia e um pouco de agressividade na narrativa, o que se traduz em certo conservadorismo na forma. É, com certeza o melhor trabalho do diretor, no entanto se resume a um bom filme, sem o impacto que se poderia esperar da ótima história que tem.

Alguns enxergarão apenas um filme sobre superação, outros apenas mais um filme de boxe, e é nessa forma sutil de tratar o tema que reside um dos defeitos do filme. A metáfora da luta de um pugilista para vencer na vida, quase passa despercebida. O drama de Dick com seu vício poderia ter sido aprofundado, um personagem cheio de possibilidades que ficou limitado.

O Vencedor concorre a sete indicações no Oscar, e tem chances de ganhar o de melhor filme, já que a academia adora dramas de superação. Seria uma surpresa, mas não é impossível, pois é um filme redodondo demais, como a academia gosta. A história de superação de Micky no mundo do boxe, que tem um drama familiar por trás, merece ser visto.

O VENCEDOR
David O. Russel
[The Fighter, EUA, 2010]

NOTA: 7,0

Indicações
Melhor Filme
Melhor diretor – David O. Russel
Melhor ator coadjuvante – Christian Bale
Melhor atriz coadjuvante – Amy Adams
Melhor atriz coadjuvante – Mellissa Leo
Melhor montagem
Melhor roteiro original

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