HIP-HOP INDEPENDENTE ENTRE OS MELHORES DO ANO
Novos discos de Ab-soul, Schoolboy Q, Killer Mike e El-P trazem novidades ao gênero

Por Paulo Floro

Discos da cena independente do hip hop americano estão entre os melhores álbuns lançados este ano. O destaque é Ab-soul com o conceitual Control System. Juntam-se a ele os novos trabalhos do Curren$y, Killer Mike, Schoolboy Q e El-P.

Ab-soul é um dos membros da banda californiana Black Hippy, que este ano revelou ainda outro rapper para o cenário pop alternativo, Schoolboy Q. Formados em 2009, o grande trunfo do coletivo é contar com integrantes que possuem carreiras sólidas em separado. O disco de Ab-Soul, Control System destaca-se pela proposta conceitual em falar de um mundo neurótico, dominado por um governo despótico.

O rapper Ab-Soul (Foto: Divulgação)

O álbum – na verdade, uma mixtape – usa com criatividade elementos do gangsta rap, com bases soturnas que abrigam com maestria os versos sobre consumo de maconha, terrorismo, violência e militarismo. Participações de vocais como Alori Joh e Jhene Aiko, carregadas de delicadeza, criam um contraponto para o discurso sempre no tom raivoso de Ab-soul, dando ar de sofisticação no resultado final. O disco abre com uma sequência que prende o interesse do ouvinte, “Soulo Ho3”, “Track Two” e “Bohemian Groove”, em que ele canta “foda-se o governo, foda-se o sistema, foda-se você”, sem parecer ingênuo ou ridículo. Com este disco, Ab-soul fez o mais cerebral trabalho de rap deste ano.

Schoolboy Q (Foto: Divulgação)

Seu colega de banda, Schoolboy Q, é mais prolífico, com participações em diversos lançamentos desde o ano passado, de Jay Rock a A$AP Rocky. Seu novo álbum solo, Habits & Contradictions tem um tom menos pessimista. Pelo contrário. O rapper quer mostrar um lado mais positivo da vida, sem muita reclamação e mais confiança nas ações. O tom, no entanto, está longe do bom-mocismo que vemos no Hip Hop brasileiro, por exemplo.

Schoolboy Q não se roga em falar sobre sexo, drogas e outros assuntos sem ingenuidade e ainda assume riscos ao apostar em elementos de música eletrônica, como em “Sex Drive”. Entre as participações especiais temos os colegas Kendrick Lamar, Ab-soul, Jay Rock, além de Curren$y, Dom Kennedy, Alori Joh e J. Hene Aiko. Todo esse povo mostra que a gravadora Top Dawg Entertainment (que também lança o Black Hippy), é hoje a maior responsável por provocar novidades no cenário do hip hop.

Curren$y lança primeiro trabalho pela Warner (Foto: Divulgação)

Bem mais experiente, o rapper Curren$y lança seu novo trabalho, The Stoned Immaculate, o primeiro totalmente bancado pela major Warner Bros. Ainda mantendo as raízes na cena indie, mas trazendo participações de nomes conhecidos como Estelle e Wiz Khalifa, ele fez um rebolativo disco com muita influência de R&B. O mais comercial dessa leva de bons discos de hip hop, é um trabalho que mostra o quanto Curren$y atingiu uma zona de conforto dentro do gênero sem perder a inventividade.

É uma celebração do próprio sucesso, e isto é mais do que merecido. As derrapadas acontecem apenas em poucos momentos, como “Chasin’ Papers” com a participação do farofeiro Pharrel. Ou na enfadonha “Showroom”. De resto, temos uma coleções de faixas que poderiam muito bem virar hits, como “That’s The Thing” (com Adele), “Faster Cars Faster Woman” (com Daz Dillinger) e “What It Looke Like”, o primeiro single e a melhor do álbum.

Killer Mike (Foto: Divulgação)

Por fim, outro disco aclamado é R.A.P. Music, do rapper Killer Mike, aqui em seu sexto trabalho. Trata-se de uma bem coesa mistura de rock e rap, com pitadas de experimentalismo. Tudo culpa do produtor El-P, nome responsável por levar o gênero a novas fronteiras e considerado o mais visionário dos rappers hoje em atividade. Mike vai longe com críticas à políticos e letras sarcásticas sobre o passado dos EUA (“Reagan”). Tem viço suficiente para tornar-se uma obra-prima do pop daqui há uns anos. Não chega a quebrar barreiras como It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, do Public Enemy ou My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, mas com certeza já é um clássico.

Killer Mike trabalhou com El-P (à direita), no novo disco (Divulgação)

Experimental
O músico e produtor americano Jaime Meline, conhecido pelo nome de El-P é um dos nomes mais aclamados do hip hop hoje. Seus discos são marcados por puro experimentalismo, mas sua influência é sentida no trabalho ao lado outros artistas, seja produzindo ou fazendo participações. A lista é extensa: Aesop Rock, A$AP Rocky, Prefuse 73, Del Tha Funkee Homosapien, Das Racist, Killer Mike, entre outros. Portanto, ele é hoje o arquiteto que propõe mudanças estruturais no gênero.

Neste aguardado disco, Cancer For Cure, Meline consolida ainda mais o namoro rap-eletrônica. É o que prova com “The Full Retard”, primeira faixa a ser divulgada e um das mais dançantes. Cheio de texturas, samplers inusitados, ecos de dubstep, house, minimalismo, com este trabalho, El-P vai quebrando regras dentro do hip-hop, gênero que, deliciosamente, ele colocou de cabeça para baixo.

El-P, o mais experimental dos rappers (Divulgação)

AB-SOUL
Control System
[Top Dawg Entertainment, 2012]

Nota: 8,9

SCHOOLBOY Q
Habits & Contradictions
[Top Dawg Entertainment, 2012]

Nota: 8,8 

CURREN$Y
The Stoned Immaculation
[Warner, 2012]

Nota: 7,9

KILLER MIKE
R.A.P. Music
[Williams Street, 2012]

Nota: 9,0

EL-P
Cancer For Cure
[Fat Possum, 2012]

Nota: 8,5

Mais vídeos dos rappers

http://www.youtube.com/watch?v=KWlu8VhcqtM

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