Foto: Divulgação/Paris Filmes.

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O Grande Herói aborda esgotamento da atuação americana no Afeganistão através de operação fracassada

O diretor Peter Berg (diretor da bomba Battleship – A Batalha dos Mares) se deu bem ao encontrar um bom direcionamento para O Grande Herói, mais um filme a mostrar de maneira crítica a atuação dos militares norte-americanos no Oriente Médio. E ainda que não faça argumentação política sobre os conflitos na região, o longa se mostra com uma opinião forte ao mostrar o esgotamento de soldados em meio a decisões éticas sempre negligenciadas. É mais sobre o lado psicológico do trabalho do que o uma discussão sobre o trabalho em si.

Berg aborda a história real de quatro soldados que participam de uma missão no Afeganistão, em 2008. Parecia um plano simples para os alardeados super-eficazes fuzileiros americanos: subir um conjunto de montanhas para assassinar um líder terrorista do Talibã, acusado de matar mais de 20 soldados dos EUA. Acontece que o destino colocou um pastor de cabras idoso e dois garotos no caminho dos quatro, o que acabou revelando a tocaia. Sem comunicação com a base, eles precisaram tomar uma decisão importante: matar a sangue frio três pessoas indefesas ou liberá-las e comprometer toda a operação. Ou pior: arriscar serem capturados e mortos pelas milícias após serem revelados.

Ben Foster em cena de O Grande Herói: não existe humanidade no combate (Foto: Divulgação/Paris Filmes).

Ben Foster em cena de O Grande Herói: não existe humanidade no combate (Foto: Divulgação/Paris Filmes).

Esse momento do filme, em que uma decisão ética define a vida de todos, contrasta com a abertura dos créditos iniciais, que mostra o pesado treinamento físico a que os “marines” são submetidos. Tanta força física e estratégia não serve de nada frente a uma escolha decisiva que tem mais a ver com índole e coragem. Seria mais fácil para todos seguir uma ordem, mas o rádio não funciona. É esse desespero frente a uma impossibilidade que torna O Grande Herói interessante frente a similares que se arriscaram a analisar o conflito.

Mas o longa decide ir além ao mostrar através dos quatro soldados uma visão menos apologética da atuação dos EUA. Vemos – mesmo quando se trata de uma crítica – certa ode à eficácia precisa e infalível dos militares. Aqui, uma sucessão de erros expõe como a atuação norte-americana no Oriente Médio (ou Ásia Central, como dirão os mais puristas) vive um momento de esgotamento. Erros de estratégia, indolência, descumprimento de protocolos de segurança que poderiam salvar vidas, entre outros problemas.

Além disso, os soldados passam por um processo de humilhação bastante penoso, que ajuda a desconstruir um mito de superioridade. O diretor acerta ainda ao apresentar outros lados dos afegães, além da velha vilanização a que sempre são submetidos. Para isso, Berg deu bastante destaque ao registro original sobre uma vila de agricultores locais que resistem até hoje ao regime talibã e seguem um código de honra de mais de 2 mil anos.

Mark Wahlberg está muito bem no papel principal do comandante Marcus Lutrell, que vive uma das mais extenuantes odisseias para escapar vivo do combate contra os milicianos talibãs. O mesmo se pode dizer dos demais atores principais – incluindo o ótimo e ainda mal aproveitado Emile Hirsch como o jovem oficial responsável pela comunicação. O problema aqui é o fato do diretor tentar estetizar o sacrifício de cada um, recorrendo a clichês como câmera lenta, fotografia saturada e música dramática.

O combate, como fica claro ao fim do filme, é desprovido de humanidade. Está longe de ser um dos melhores filmes de guerra modernos, justamente pelo receio que teve em se manter sóbrio, mas ainda assim rende debates interessantes sobre a guerra no Afeganistão, ainda longe de um fim.

grandeheroiO GRANDE HERÓI
De Peter Berg
[Lone Survivor, EUA, 2013 / Paris Filmes]
Com Mark Wahlberg, Emile Hirsch, Taylor Kitsch

Nota: 7,0

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