CORPO ESTRANHO
O Artista chamou atenção por ser estranho (mudo, preto e branco), mas seu maior destaque é o humor irrestível e o modo como encara o passado

Por Paulo Floro

Ninguém poderia crer – nem mesmo seu próprio diretor – que um filme tão estranho (mudo, preto e branco) como O Artista fosse fazer tanto sucesso e colecionar os mais de 40 prêmios nesta temporada. Michel Hazanavicius era um diretor sem muita repercussão fora da França e conhecido mais pela sua série OSS 117, uma paródia de James Bond. O interesante desse seu novo longa é que ele traz um humor irrestível decalcado dos primórdios do cinema e consegue atrair atenção pelo inusitado.

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Mais da metade da força do filme está no fato de ser preto e branco e diálogos falados. A proposta foi mais do que um puro capricho estético. Hazanavicius quis teletransportar seus espectadores para a atmosfera que as produções de aventura e comédia provocavam nas audiências da década de 1920-30 de Hollywood. O Artista tem como embalagem espalhafatosa essa homenagem ao grande cinema clássico, do glamour perdido daquela era, etc.

Fala também de um período complicado da transição do cinema mudo para o falado no início dos anos 1930, quando nem todos os artistas conseguiram se adaptar. George Valentim, interpretado por Jean Dujardin é um galã que cai em desgraça depois de ver sua carreira ruir com a derrocada da era do silêncio dos atores. Já Peppy Miller (a argentina Bérénice Bejo) consegue fazer bem essa transição e torna-se uma estrela da nova fase do cinema. Ela era apenas mais uma fã até ser descoberta por Valentim, que num momento de inspiração, lhe dá a famosa pinta no rosto que a faria famosa.

Críticos têm comparado a história de Peppy e Valentim com John Gilbert (1897-1936) e Greta Garbo (1905-1990). Ela já era famosa no cinema mudo, mas seguiu fazendo grandes sucessos com a chegada do cinema falado. Ele não teve a mesma sorte. Além desses temas mais óbvios, O Artista ainda traz a história de amor entre os dois. Em uma cena muito bonita, Valentim erra diversas vezes uma tomada só para poder contracenar por mais tempo com Peppy, então apenas uma figurante.

O Artista tem todo esse deslumbre – e funciona bem demais, o que o transformou nesse arrasa-quarteirão – mas funciona também como uma pensata aos dias de hoje, quando o 3D é outra técnica que chega anunciando uma suposta nova era. Esse conflito entre presente e passado mostra o poder que o cinema sempre teve em causar uma reação inesperada. Assim como A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorcese que reproduz o susto que as pessoas tiveram com as primeiras exibições, neste longa francês também é mostrado o humor das plateias naquele tempo.

Por isso, O Artista é tanto um filme metalinguístico sobre a história do cinema, mas também sobre nós, o público. O fato de não ter diálogos falados e ser em preto e branco contribuiu para uma experiência mais imaginativa. Os sons são utilizados em momentos estratégicos e chamam muita atenção. A cena mais inspirada é quando Valentim começa a se assustar com os sons ao seu redor, como o copo batendo à mesa, o vento, as risadas das pessoas. Em seguida, ele é aterrorizado pelo fato de tudo fazer barulho, menos ele mesmo.

Para quem viu em O Artista incongruências históricas, é bom lembrar que ele é apenas um olhar dentro do tamanho da importância quem o cinema tem na cultura pop. Pode-se dizer que Hazanavicius deu a entender que os filmes mudos foram todos ingênuos, ignorando obras experimentais como o expressionismo alemão. O Jack Russel Terrier Uggie rouba a cena em diversos momentos e é a prova cabal do amor do diretor pelas produções mais inocentes com cachorrinhos salvando donos de perigo.

Outras produções preto e branco já foram feitas pelos mais diversos motivos, seja provocar distanciamento no espectador (A Fita Branca, de Michael Haneke), ou por alguma ironia (Celebridades, de Woody Allen). Até mesmo um filme mudo foi feito em 1976, A Última Loucura de Mel Brooks. Mas, O Artista tem a ousadia estética de unir as duas coisas. É um blockbuster dos mais esquisitos, e uma grata surpresa nesses tempos de tecnologia superestimada.

Indicações ao Oscar
Melhor Filme
Melhor Direção de Arte
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Diretor (Michel Hazanavicius)
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Ator (Jean Dujardin)
Melhor Atriz coadjuvante (Bérénice Bejo)
Melhor Roteiro Original (Michel Hazanavicius)

O ARTISTA
Michel Hazanavicius
[The Artist, FRA/BEL, 2011]
Paris Filmes

Nota: 8,4

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