Clássico do mangá explora o imaginário do youkais, os fantasmas-monstro do Japão

Crítica: NonNonBa, clássico de Shigeru Mizuki, é misto de terror, humor e afeto
NOTA9.5

É impressionante como ainda não conhecemos a maior parte dos clássicos mangás japoneses, uma biblioteca básica que, felizmente vem sendo lançada no Brasil em boas edições. E isso nem é exclusividade do nosso país, mas do Ocidente como um todo. NonNonBa, de Shigeru Mizuki (1922 – 2015), é um desses casos. Lançado originalmente no Japão em 1977, essa obra foi descoberta pelos franceses em 2007 quando ganhou o prêmio de melhor álbum no Festival de Angoulême. E agora, mais de dez anos depois, finalmente podemos conhecer a obra-prima de Mizuki.

A narrativa se passa no Japão do entre guerras, nos anos 1930, e é um misto de caderno de memórias e fantasia, com muito uso do folclore japonês. O pequeno Shigeru vive com seus pais em uma família de classe média baixa do Japão na cidade costeira de Sakaiminato. Em meio a guerra de gangues formadas por crianças, desenvolvimento de amizades, notas baixas na escola e descoberta da sexualidade, ele conhece uma simpática senhora que acaba indo trabalhar em sua casa. Ela é conhecedora das tradições religiosas e populares, sobretudo no que diz respeito aos youkais, espécie de monstros espirituais típicos do imaginário japonês.

A HQ foi lançada em 1977 no Japão, mas só agora chega por aqui.[/caption]Esses youkais são a base para o desenvolvimento do mangá, pois Mizuki costura suas memórias a partir da personalidade de cada um desses espíritos. A NonNonBa do título serve como guia para que possamos adentrar nesse mundo oculto junto com o protagonista. Como uma senhora atenciosa e amável – mas também rígida em suas convicções – ela acaba servindo como uma mestra do pequeno Shigeru em meio aos dilemas típicos de seu amadurecimento. O termo “NonNonBa” é dado a todas as mulheres idosas devotas da religião tradicional japonesa.

Os personagens evoluem conforme o quadrinho avança, mas tudo é mostrado de forma muito orgânica. Vemos os pais lidando com as próprias inseguranças em relação às mudanças que apareciam na sociedade japonesa, que àquele momento vivia a contraposição da rigidez dos costumes e as novas tecnologias. O pai do protagonista representa o fascínio com a abertura cultural que começava a surgir no final dos anos 1930. Funcionário de um antigo banco local ele decide seguir a aventura de abrir um cinema em sua pequena cidade para desespero de sua família. É também ele que incentiva o filho a desenhar e contar histórias, além de estimular o lado culto do menino. Já sua mulher é uma representação da figura tradicional, agarrada às aparências, sempre citando que sua família “era de uma linhagem com direito a sobrenome e porte de espada”. Pragmática, mas amável, quer apenas o conforto da família.

Já a NonNonBa parecia estar acima dessas transformações sociais, como se representasse a força do imaginário, algo tão poderoso que perpassa a cultura. Shigeru Mizuki construiu bem os personagens, conferindo diversas nuances, mas fez isso com um desenho caricatural, exagerado, o que prova o seu domínio como contador de histórias.

Há personagens que trazem alguns clichês que seriam utilizados à exaustão nas décadas seguintes como é o caso da jovem delicada e doente, aqui encarnada na personagem Chigusa-san. Menina enferma, ela se muda da superpovoada e moderna Tóquio para ser cuidada no interior. Conforme sua doença avança ela fica bastante próxima de Shigeru e compartilha com ele uma conexão que adquire contornos espirituais. O mangá japonês tem certa obsessão pela figura da “sílfide frágil”, a personagem feminina que encerra em si uma pureza quase divina como contraponto a uma decadência ao seu redor.

O desenho de Shigeru Mizuki tem toques de humor e traços exagerados, mas convivem com cenários belamente desenhados, cheios de detalhes. Essas composições contam com a ajuda de assistentes, como é de praxe em diversas obras, mas ainda assim chamam atenção pela forma como servem à história, formando uma narrativa muita rica de sentido. É uma oportunidade única para imergir no Japão rural dos anos 1930. Além disso o autor foi imaginativo como poucos na hora de criar seus espíritos, cada um desenhado de maneira completamente distinta. Uma mistura do desenho grotesco de terror com um toque de humor. Por saber manejar tão bem esses contrastes, a obra de Mizuki tornou-se um marco no mangá japonês influenciando diversos autores.

A contribuição de Mizuki para a construção do gênero biográfico no mangá foi mostrar que é possível criar narrativas além do drama realista e histórico. Ao trazer sua própria subjetividade para um campo do sobrenatural ele reforçou o poder do imaginário japonês ao mesmo tempo em que criou uma panorama daquele período. Uma ainda rara mistura do estilo shounen e horror. E fez isso de maneira divertida, lúdica, mas com passagens contundentes que consegue levar o leitor às lágrimas em diversos momentos.

A edição da Devir é um primor, com posfácio sobre a importância do autor e um dicionário de termos japoneses. São mais de 420 páginas que fazem jus a importância de Mizuki. A obra faz parte da coleção Tsuru, que vem publicando clássicos do mangá em volumes únicos. Fazem parte títulos como O Homem Que Passeia, de Jiro Taniguchi, Tinkkon Kinkreet, de Tayo Matsumoto, além de Uzumaki, de Junji Ito.

Pouco publicado no Brasil, Mizuki morreu em 2015 aos 93 anos. Famoso por NonNonBa ele também foi autor de trabalhos como Gegege no Kitaro. O mangaká serviu na Segunda Guerra Mundial, onde perdeu o braço esquerdo durante um bombardeio. Ele também foi historiador e usou esse seu conhecimento em seus desenhos, mais notadamente na série Showa: A History of Japan, que saiu nos EUA em quatro volumes pela Draw & Quartely. Que mais obras suas cheguem por aqui.

NONNONBA
De Shigeru Mizuki
[Devir, 428 páginas, R$ 89,90 / 2018]
Tradução de Arnaldo Oka

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