Kane, ex-The Rascals, abandona melancolia para fazer um disco mais selvagem e punk

Crítica: Miles Kane transforma decepção amorosa em música, mas chega com pouco a dizer
NOTA5.5

Miles Kane, ex-The Rascals, chega ao seu terceiro álbum solo, Coup de Grace. Kane retoma sua carreira solo após Everything that you’ve come to expect (2016), último trabalho do The Last Shadow Puppets, projeto que divide com Alex Turner, do Arctic Monkeys.

O músico recorre a um artifício já conhecido no indie: transformou um de seus fracassos amorosos como força motriz de sua arte. Mas o álbum não traz nenhuma contribuição ao rock atual nem eleva o que já conhecíamos da sonoridade de Kane e suas outras bandas.

No início do ano, Kane estava em Los Angeles enfrentando o término do seu namoro, quando começou a se encontrar com Jamie T para fazer música. Adicione Lana Del Rey na equação e assim nasceu “Loaded”, single que inclusive ficaria fora do disco por não combinar muito com a proposta, mas, pra nossa sorte, acabou entrando.

“Loaded” abriu o caminho para o que ele considera o álbum mais gostoso de se fazer. “Eu e Jamie planejamos compor uma canção por dia e tudo foi bem instantâneo e rápido”, disse Kane, em entrevista. Para quem não fala francês, como eu, o título do disco é uma homenagem a um dos golpes de Finn Bálor, lutador de WWE favorito de Miles. Bálor, inclusive, fez uma participação no clipe de “Cry On My Guitar”, onde troca golpes contra o próprio Miles Kane.

Quando um artista fala que escreveu um disco sobre o fim de um relacionamento, o que você espera? Melancolia, sonoridade sentimental, amargura, certo? É exatamente o que não encontramos neste disco. Selvagem é o adjetivo perfeito para descrevê-lo. Em entrevista, Miles contou que estava escutando bastante punk e post-punk, e que isso teria influenciado bastante na sonoridade do novo trabalho. “Ando muito obcecado pelo primeiro álbum do The Damned. Tem uma canção nele chamada ‘Neat Neat Neat’ que eu tenho ouvido direito. Tenho ouvido muito post-punk, como Cramps, Misfits, Ramones…”

Em linhas gerais, considero um bom disco, mas que não reverbera tanto dentro do momento atual do rock e do pop. Acho um trabalho tão decente e honesto com seu público quanto o As you Were, de Liam Gallagher é. Ainda sim, não curto tanto o Miles elétrico e animalesco que encontramos em maior parte do disco.

As faixas mais interessantes são as mais calmas e intimistas, como a lindíssima “Killing the Joke”, que tem um charme e delicadeza que me lembrou “Mind Games” de John Lennon e “Shavambacu”, baladinha que não sai da cabeça, e que pra mim é o grande hit desse álbum. Foi um erro não tê-la tornado uma single. São duas faixas que sustentam o disco. Eu o compraria só por elas.

Seja descontando a decepção de um coração partido, num ringue de luta, ou flutuando num hotel espacial, o que – na verdade – todos querem é mais uma reunião de Miles Kane e Alex Turner para um novo trabalho do The Last Shadow Puppets.

MILES KANE
Coup de Grace
[Universal, 2018]

Sem mais artigos