NOVO OLHAR DAS MARAVILHAS
Continuação de série clássica da Marvel traz reflexão pessimista sobre a existência de superseres pela visão das pessoas comuns

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!, em Recife

Os quadrinhos da Marvel ostentam com orgulho o clássico Marvels (1994). Escritor por Kurt Busiek e desenhada por Alex Ross, mostrava pela primeira vez os super-heróis pela visão das pessoas comuns. Essa abordagem pouco utilizada fez da HQ um sucesso e influenciou as histórias da editora nos anos seguintes. Esta continuação que chega agora às bancas pode ser chamada de caça-níquel por tentar recuperar o êxito do título original, mas com atenção é possível encontrar seus méritos.

Pra começar, o mesmo autor da série original aceitou escrever esta continuação. E Busiek foi bem preciso neste seu novo argumento. A era das maravilhas vive agora uma ressaca, e seu olhar, mais realista, tornou-se pessimista, melancólico. Philip Sheldon, fotógrafo que foi testemunha da história, que cobriu a rendição da Alemanha, encontrou Josef Stalin, agora vive como freelancer e, sem muito trabalho, está quase aceitando um emprego em um tablóide sensacionalista.

Ele agora vive num mundo onde os heróis tem empresas para vender suas marcas, justiceiros nada heróicos estão à solta e os mutantes causam medo e repulsa na população por serem uma incógnita. A narrativa é semelhante à edição original, ainda que não tenha mais o mesmo impacto.

A própria Marvel repetiu a fórmula, criando séries que colocam os humanos como protagonistas ou fazendo com que personagens antes secundários ganhassem importância. A ideia por trás da trama, que desmistifica os superseres, apontando seus erros e falhas humanas, também está obsoleta. A própria saga Guerra Civil levou às últimas consequências o realismo na indústria dos comics, abordando política enquanto colocava todos os heróis e vilões brigando entre si.

Até a arte tentou manter a mesma proposta do Marvels original. Alex Ross, que desenhou a primeira versão, foi um dos nomes mais importantes dos quadrinhos dos anos 1990. Sua técnica utilizava técnicas de pintura e até modelos humanos para tornar tudo mais realista. Jay Anacleto, desta edição, ainda que possua um bonito traço, deixa a impressão de que se trata de um Alex Ross genérico.

Marvels 2 é de fato uma continuação desnecessária, mas uma vez que segue a lógica do mercado de capitalizar em cima do sucesso, consegue se sair bem sem muitos tropeços. Kurt Busiek se aprofundou ainda mais em seu personagem principal, mostrando o que aconteceu com ele após a fase áurea dos super-heróis. O tom do texto é melancólico desde o início.

Com um universo tão rico, até faz sentido a Marvel se sentir tão confortável em falar de si mesma. Com uma cronologia mais ou menos coesa, até parece interessante existir um Marvels a cada dez anos, num exercício de imaginação de que essas maravilhas de fato existem. Faltou a Panini de explicar mais sobre a série original.

MARVELS 2 – POR TRÁS DA CÂMERA
Kurt Busiek (texto) e Jay Anacleto (arte)
[Minissérie em edições, Panini, 52 págs, R$ 5,90]

NOTA: 7,0

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