CONTRADITÓRIO?
Conhecido pela postura Anti-Globalização, cantor abusa do marketing ao divulgar o novo trabalho
Por Rêmulo Caminha

MANO CHAO
La Radiolina
[Nacional, 2007]

Manu Chao - La Radiolina Dois meses depois de uma turnê pelos Estados Unidos, La Radiolina chega às lojas como o último álbum de Manu Chao. O músico francês, filho do famoso escritor galego, Ramón Chao, lança o novo trabalho após Clandestino (1998) e Próxima Estacion: Esperanza (2001), discos responsáveis pela consolidação do artista no mercado.

Apesar de um dia prometer jamais retornar aos palcos norte-americanos enquanto George W. Bush fosse presidente, Manu Chao se apresentou, inclusive, em Houston, Texas, cidade natal do mandatário Republicano. Com shows marcados até o último dia de julho, o artista não revelou se doou boa parte do dinheiro arrecadado à África durante a estadia na América, pois é um dos que proclamam fervorosos discursos e até compõe canções antiglobalização. É um cantor identificado com o movimento de esquerda na América Latina, muito simpático com o paladino da política venezuelana, Hugo Chávez.

Manu Chao critica a ideologia de mercado e, simultaneamente, faz uso da ferramenta da conectividade global, disponibilizando o seu produto na Internet, em formato MP3. Sem dúvidas, é adepto do marketing. Não foi à toa que, no mês de maio, deixou no site a canção “Ranin in Paradise”. Hoje, a música, além de figurar no novo trabalho do músico, é uma das mais tocadas nos Estados Unidos.

Com toda uma estrutura propagandística, Manu Chao entrega aos fãs aquele que seria seu último trabalho no formato disco. A partir de agora, o artista promete, mais uma vez, apenas lançar músicas na Internet. Talvez, para sobreviver, o cantor recorra ao governo cubano ou chavista para, quem sabe, ser aposentado compulsoriamente.

Para reforçar a militância, Manu rompeu com a multinacional Virgin, gravando o novo trabalho pela Beacuse, um pequena empresa do amigo Emanuel de Buretel. O disco foi produzido por Mario Caldato Jr (Raimundos, Beastie Boys) e Andrew Scheps (Mars Volta, Red Hot Chili Peppers).

O álbum tem 21 músicas e 51 minutos, trazendo desde a rumba caribenha, rock ao estilo alternativo do Clash, flamenco até um hino de louvação ao ídolo Maradona, “La Vida Tômbola”. Na verdade, não se trata da primeira canção dedicada ao jogador argentino, pois “Santa Maradona” foi responsável pela projeção do artista na Europa e América Latina, em 1994. Vale lembrar também a recente participação de Manu Chao no documentário sobre o atleta, compondo uma música para a trilha do cineasta sérvio Emir Kusturica.

Disparando o discurso panfletário, Manu Chao traz até um trecho da fala de Bush na canção Tristeza Malez. Com um tom humanitário, luta pelos direitos das prostitutas em “Me Llamam Calle”. Surge também, como bônus track, a faixa em português “Amalucada Vida”, repleta de versos bizarros.

O álbum não repete a maestria dos anteriores por conta dos mesmos arranjos, que agora soam como repetitivos. Manu Chao renova, mas sem inovar, deixando uma lacuna para os fãs que esperavam um pouco mais de um último disco. Entretanto, vale ressaltar nem sempre palavra dita é seguida literalmente. Como a experiência muito comprova, o que vale para Manu não são os paradigmas do Século XXI, mas, sobretudo, a pesada força do mercado.

NOTA: 5,0

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