Compositor baiano assume riscos em trabalho experimental cheio de brasilidade

Por Juliana Simon

Na música, experimentar é um sonho e um risco. E foi o que Lucas Santtana fez ao apostar em O Deus Que Devasta Mas Também Cura. Camadas, climões, poesia, rimas pobres, homenagens, odes, valsa, tudo tem lugar no novo trabalho do cantor baiano.

A faixa que dá nome ao álbum abre os trabalhos e é um dos grandes destaques logo de cara. Soa ora valsa, ora jazz. A parceria com Gui Amabis começa grave e cresce leve na interpretação de Lucas. Instrumentos de sopro – principalmente o fagote – marcam não só essa música, como todo o CD e dão o tom sofisticado. Guizado e seu trompete, que já desfilaram por muitos discos, em parcerias e em voo solo, entram na belíssima “Vamos Andar Pela Cidade”.

Em “Ela É Belém”, homenagem a capital do Pará, elementos do technobrega se misturam ao clássico. “Luz de aparelhagem” é cantada em calma, num paradoxo proposital. Lucas não fica distante da influência da guitarrada, tão querida e difundida (para não dizer quase esgotada), em “O Paladino e Seu Cavalo Altar”.

São Paulo também ganha espaço no trabalho do soteropolitano em “Se Pá Ska S.P”, um ode ao ritmo frenético e à solidão da megalópole. O ska ganha interpretação rap, que desemboca em trompetes, trombones, para terminar nos versos em inglês. “Cities become crazy”.

“Dia de Furar Onda No Mar”, uma parceria com Josué Santana, representa o samba correto e cadenciado no CD. “Para Onde Irá Essa Noite?”, já quase no fim do álbum, é outra que impressiona já na primeira audição. A história que se desenrola na letra – um amor impossível, por mais cafona que isso possa parecer – tem versos simples, mas honestos.

Alguns poucos sustos, como na rima de “alvoroço” com “colosso” em “É Sempre Bom Lembrar”, surgem ao longo do trabalho. Mas o que fica na memória é uma viagem corajosa por vários ritmos, estilos e temas. Agrada Pará, São Paulo, Bahia, Rio e um mundo com vontade de música brasileira.

LUCAS SANTTANA
O Deus Que Devasta, Mas Também Cura
[Independente, 2012]

[Recomendado]

Nota: 9,0

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