Imagem: Divulgação

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A (BOA) MAGIA DE SEMPRE
cumpre o prometido dentro de seu gênero, mas hesita em ir além

Por Renata Arruda

A princípio, o livro de Teri Brown surpreende. Podendo resvalar no lugar-comum dos best-sellers não tão bem escritos, que prendem o leitor mais por seus ganchos de capítulo em capítulo que pela qualidade da obra, em  é notável o cuidado com que a autora procurou trabalhar ao escrever sua história e o empenho em manter um nível se escrita acima da média para este tipo de publicação – ainda que derrape em alguns clichês aqui e ali —  e sendo capaz de despertar um interesse genuíno. Pena que tudo isso vale somente até metade do livro.

Para quem gosta do gênero, a premissa é instigante: Anna Van Housen, a protagonista, tem 16 anos e é assistente de sua mãe, a famosa médium Marguerite Van Housen. Vivendo de maneira nômade até finalmente se estabelecer, Anna foi de menina das facas em um circo até uma ilusionista talentosa — o que desperta o ciúme e o instinto competitivo de sua mãe. Mais pé no chão que sua genitora, tudo que Anna quer é manter uma vida respeitável, longe do estigma de imoralidade que rondam artistas como ela durante os vibrantes anos 20. Ao mesmo tempo, Anna é apaixonada por sua arte e não hesita a se exibir publicamente quando topa com um mágico de rua.

Mas Anna sofre de visões. Aqui a autora força um pouco nos poderes clarividentes da menina: entre algumas das grandes tragédias da humanidade ela foi capaz de prever o naufrágio do Titanic. Mas o que passa a intrigá-la é que agora ela começa a ter visões sinistras sobre sua vida pessoal. Além disso, Anna tem um poder sobrenatural, mal explicado pela autora, que é o de poder sentir como outras pessoas estão se sentindo simplesmente ao tocá-las. Com forte instinto de preservação, Anna intui que é melhor não deixar que ninguém saiba dos seus dons.

Enquanto isso, sua mãe — uma verdadeira charlatã — engana clientes incautos, geralmente muito ricos, em sessões privadas onde simula uma comunicação com os mortos. Habituada a enganar e criar histórias para sobreviver, é com desconfiança com que Anna lida com a revelação de que seu pai é ninguém menos que o grande ilusionista Harry Houdini. Na vida real, Houdini não deixou descendentes  (sendo o mais próximo um sobrinho-neto que só foi descobrir tardiamente seu parentesco), e a autora é esperta ao não concluir o mistério, deixando com que cada leitor faça sua própria interpretação dos fatos. Aliás, é importante ressaltar para aqueles que se sentirem atraídos pelo nome famoso de Houdini, o mágico não tem praticamente nenhuma função na trama além de dar um tempero a mais e de deixar no ar a possível origem do talento quase sobrenatural de Anna para o ilusionismo.

Sendo um livro nos moldes das histórias detetivescas, enquanto tenta desvendar seu mistério Anna se depara com diversas figuras curiosas e suspeitas ao longo da trama. Temos o velho ranzinza que se revela um hábil e providencial inventor-maluco, o empresário ganancioso, a amiga frívola, o figurão mafioso, a rival raivosa, o médico membro de uma sociedade curiosa e dois pretendentes, construídos de maneira convencional: o moreno sério, calado e de maneiras respeitáveis  e o loiro desinibido e boa pinta, que frequenta os lugares mais quentes da região.

E no meio de sua investigação a historia fica ainda mais estranha e é a partir daí que a coisa desanda. Com um material rico na mão, Teri Brown poderia ter escolhido caminhos menos óbvios e tecido uma trama complexa e inteligente, que surpreenderia positivamente o leitor — pelo menos ela demonstra ter habilidade para isso. Em vez disso, resolveu apelar para o lugar-comum e, ainda, adicionar um tempero sobrenatural, concluindo sua história de maneira inverossímil. Um problema que percebo não ser incomum neste gênero de , do qual nem J.K. Rowling, sob o pseudônimo de Robert Galbraith, conseguiu fugir em seu O Chamado do Cuco.

Apesar do desfecho fraco, o livro de Brown ainda se destaca entre muitos e oferece um entretenimento honesto, que vai agradar ao público de histórias de suspense e magia e deixar uma vontade de continuar acompanhando a série.

filhadailusão

Filha da Ilusão (Série Herdeiros da Magia)
Teri Brown
Tradução Heloisa Leal
288 paginas
Editora

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