SEGUNDO TEMPO
Poesia pretensamente cool minimalista de Karina cansou rápido

Por Maurício Ângelo

Minha relação – se é que podemos colocar nestes termos – com Karina Buhr é curiosa: fui um entusiasta precoce do primeiro disco, Eu Menti Pra Você. Gostei do que ouvi e elogiei consideravelmente a bolacha na época do lançamento. Mas o disco envelheceu rapidamente e mal pra mim. Carreguei no tempero, passou da conta.

Naquela resenha, disse: “Ao vivo, completo, com o clima ideal, a música de Karina deve crescer assustadoramente.” E aí veio o Conexão Vivo BH este ano. Perdi o show porque não estava na cidade. Amigos deliraram, elogiando como um dos melhores do festival. Logo depois, tive minha chance: o Natura Nós.
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Tocando numa tarde ensolarada no Santa Tereza, a música de Karina não bateu. Apesar da ótima banda de apoio que chamou para a turnê – Catatau, Scandurra, Guizado – me pareceu muita performance e pouco som. Karina usa intensamente sua formação teatral, sua experiência com a Comadre Fulozinha e faz o diabo no palco. Corre, gira, dança, provoca, roda o microfone, senta, deita, grita, lê cada música.

E falta algo. A poesia pretensamente cool minimalista cansa rápido. “Carapalavra”, o primeiro single, apesar do instrumental emulando MC5, não casa com os gritos de Karina. “A Pessoa Morre” – e seu concretismo forçado – “Não Me Ame Tanto”, com Karina novamente assumindo aquela persona de intérprete modernê independente – tão fundamental pra obra dela, aparentemente – “Cadáver”, feita no automático com jogos de palavras ruins e “Sem Fazer Ideia” soa como uma esquete ruim.

Catatau, líder de uma das melhores bandas do país – e certamente de um dos melhores shows – aparece cansado, convencional, na mistura de sua pegada brega-progressiva-experimental com a veia rocker “tradicional” de Scandurra e os arranjos “circenses modernos”, como “Pra Ser Romântica” e seu mais do mesmo. Melhores momentos do disco, curiosamente, é “The War’s Dancing Floor”, “Amor Brando”, quando ela permite sair um pouquinho da empáfia do discurso sentimental pronto e “Não Precisa Me Procurar”, que volta a cair, tropegamente, no mesmo papo. Se a moça anda de mal com o amor, não soube transformar isso em boa música – como geralmente acontece.

A sensação que fica, pra mim, é que Karina perdeu a graça rápido. Esbarra numa pretensão performática e de discurso beirando o insuportável. Tudo que parecia interessante no primeiro disco se revela uma fórmula canhestra no segundo e que já demonstrava suas falhas no show. Pena. Longe de Onde exala uma aura “cosmopolita-regional” fake demais pro meu gosto.

KARINA BUHR
Longe de Onde
[Independente, 2011]

NOTA: 6,0

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Maurício Ângelo é jornalista, um dos sócios da Revrbr e editor do Movin’Up. Na Revista O Grito! já escreveu crônicas e artigos. Leia mais textos dele

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