Cantor se afasta do personagem que cultivou por 15 anos no Sigur Rós (Divulgação)

PARA SONHAR ACORDADO
Disco solo do vocalista da Sigus Rós e seu pop etéreo nos leva às nuvens com melodias flutuantes e inspiradas

Por Alexandre Figueirôa
Editor da Revista O Grito!, no Recife

A Islândia é um país longínquo e estranho e tudo que vem de lá parece escapar de nossa compreensão mais imediata. Björk com sua voz misteriosa e etérea é a prova melhor disto. O Sigus Rós, também vinda daquelas terras geladas e vulcânicas, também carrega consigo esta marca de estranheza. Mesmo com o reconhecimento mundial é um dessas bandas que alguns adoram e ficam em êxtase ao ouvi-la e outros que simplesmente a detestam. O seu vocalista Jón Pór Birgisson, mais conhecido por Jónsi, decidiu estender então esta experiência musical e lançou o seu primeiro disco solo Go.

Para os admiradores do Sigus Rós é a oportunidade de prosseguir no sonho. Jónsi, no entanto, afasta-se dos ritmos lancinantes trip hop e pós-rock das principais canções de seu grupo e nos apresenta um universo musical mais refinado e menos sombrio, como se sozinho ele colocasse à mostra o lado mais alegre de sua alma. São nove canções de puro deleite sonoro, em que a bela voz de Jónsi aliada a melodias de sons suaves em que violinos, piano, instrumentos de sopro, cravo e uma percussão inspirada, nos leva por um universo mágico cujo efeito é inesquecível.

A faixa principal é “Go Do”. O single tem um clipe promocional cujas imagens espelham bem a proposta do álbum de explorar e aperfeiçoar o percurso musical do artista. “Animal Arithmetic”, a canção seguinte, tem uma energia inesperada e um final delirante com violinos e um coro de vozes angelicais. Em “Tornado”, Jónsi potencializa sua voz em falsete e os arranjos de fundo criam um gracioso contraste mesclando uma certa melancolia com a possibilidade do ouvinte escolher entre o sonho ou a tristeza. Boy Lilikoy retoma o clima geral do disco e há uma profusão de sons de percussão, violinos e flautas que proporcionam uma atmosfe ra leve e envolvente que se multiplicará nas faixas seguintes, todas igualmente repletas desta sonoridade ímpar.

A pegada pop de Jónsi está em cada detalhe do álbum cuja parte visual foi toda feita pelo seu namorado, o artista plástico Alex Sommers e nos arranjos das músicas que remetem a um cenário barroco e celestial. Os músicos que o cercam nesta viagem têm formação erudita e adornam as canções com um clima de orquestra épico e eloquente que vão se transformando a cada faixa, indo de uma sonoridade grandiosa a uma introspecção quase minimalista de efeitos devidamente ordenados. As canções são do próprio Jónsi e as letras estão em inglês. Este caminho servirá talvez para Jónsi distanciar-se um pouco do personagem que ele forjou por quinze anos à frente da Sigus Rós e conquistar um lugar apenas seu na cena do pop mundial.

Apesar de tudo, talvez seja difícil desvincular ele da aura construída no grupo, cuja música por quinze anos flertou com um rock transcendental. Jónsi, mesmo com esta nova vestimenta, permanece adepto de uma música de sonoridade espiritualizada, quase sagrada. Para quem curte o gênero ouvir Go é sonhar com os anjos.

JÓNSI
Go
[XL, 2010]

NOTA: 8,5

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