MUDANÇA PARA MARTE
Filme é grande aposta da Disney para uma nova franquia com atores reais e traz ambiciosa mistura de ficção-científica e universo fantástico

Por Paulo Floro

O filme John Carter – Entre Dois Mundos chega aos cinemas com uma dose de risco altíssima. Baseado no romance Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Borroughs (criador de Tarzan), a história penou para chegar à telas, foi desdenhado por estúdios, e finalmente chega como uma aposta alta da Disney para gerar uma franquia lucrativa com atores de carne e osso. Conhecido por seus trabalhos em sucessos como Monstros S.A. e Procurando Nemo, Andrew Stanton foi o escolhido para dar vida à história de um humano que é levado para Marte e se vê no meio de uma guerra entre os aliens.

Mas, talvez o maior desafio do longa seja enfrentar toda a propaganda negativa que enfrenta antes mesmo de estrear. A comunidade nerd não aceitou bem a produção pelo pouco que viu e a crítica destruiu o filme antes do lançamento. O Metacritic, que compila resenhas de veículos de língua inglesa estampa uma média de 55, incluindo notas baixíssimas dos influentes Empire, Variety e Entertainment Week. O mercado também segue apreensivo. Muitos acreditam que a Disney não irá recuperar o investimento de 250 milhões de dólares. Uma das razões seria o fato do personagem ser desconhecido do grande público – sobretudo das crianças e o fato de ser baseado em uma literatura pulp do início do século passado não ajudou muito.

Mas, toda essa expectativa mostra o quanto a Disney está disposta em pensar em produções fora de sua zona de conforto. O mesmo vale para Stanton, inexperiente em filmagens com atore humanos, ele, que tem dois Oscar no currículo por Wall-E e Procurando Nemo, topou o desafio de recriar o imaginativo mundo de Barsoom, que é o nome do planeta que conhecemos como Marte. A história mistura ficção-científica com produção de época e tem um bom gosto para as soluções visuais. Como é passado em dois cenários extremamente diferentes, John Carter tem como seu maior apoio o seu impacto visual. E consegue se dar bem.

O filme conta a história do personagem-título, interpretado pelo pouco conhecido Taylor Kitsch, um capitão do exército sulista durante a Guerra de Secessão americana. Após criar conflito com a corporação, ele é teletransportado acidentalmente para Marte, onde é introduzido a uma comunidade alien e se apaixona pela princesa Dejah Thoris (Lynn Collins), cientista que foge de um casamento arranjado com o líder da cidade inimiga. Ainda que o roteiro encoste em alguns clichês, a trama é mais intricada que muitas produções do gênero e levam o espectador a acompanhar uma conspiração cheia de reviravoltas.

Stanton conseguiu levar para esta produção live-action um pouco da sensibilidade que tornaram seus filmes famosos. Os personagens possuem pequenas nuances que os livram dos estereótipos para os quais estariam predestinados. John Carter, por exemplo, é irascível, impetuoso, antipático e mostra total desapego com os problemas alheios. Conforme a trama avança, ele precisa escolher entre o envolvimento que teve na crise planetária em que se envolveu e a vontade de retornar ao seu lar de origem. Claro, como boa produção Disney que é, não há espaço para muita experimentação na jornada do herói tradicional.

O elenco de atores é praticamente todo formado por desconhecidos da grande tela. Alguns vieram de seriados de televisão, como Taylor Kitsch, de Friday Night Lights e Brandon Craston (famoso por Breaking Bad), que interpreta um tenente americano neste filme. Lyn Collins, a princesa de marte, fez apenas pequenos papeis e atuou junto com Kitsch em X-Men Origins: Wolverine. O único nome mais conhecido é William Dafoe, que dá vida ao guerreiro alien de quatro braços Tars Tarkas.

John Carter pode até não cumprir todas as expectativas depositadas nele, mas é interessante por ser o filme mais ambicioso da Disney em muitos anos.

JOHN CARTER – ENTRE DOIS MUNDOS
Andrew Stanton
[John Carter, EUA, 2012]
Disney

Nota: 8.0

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