Melodramático, Jens Lekman usa o cotidiano e coisas simples para fazer um pequeno clássico do pop romântico

Jens Lekman

JENS LEKMAN
Night Falls Over Kortedala
[Secretly Canadian]

Jens Lekman - Night Falls Over Koterdala Para os que acreditam na alcunha de Jens Lekman de “o último espírito pop romântico” podem adicionar outra : o melodramático. Fica evidente neste novo disco, com previsão de lançamento em outubro pelo selo Secretly Canadian, o mesmo de Antony and The Johnsons.

O melodrama de Lekman é bem orquestrado, melódico e, sim, moderno. Desde que se aventurou com seu romantismo em dois álbuns e vários EP’s, o cantor chamou atenção da crítica e dos amantes do indie lo-fi. Sua existência é prova cabal de vigor e criatividade da cena sueca, em relação ao resto do mundo. Uma comunidade de músicos longe do esquema industrial e criativos o suficiente para surpreender ouvintes até no Brasil, onde se apresentou em dezembro de 2006.

O som de Lekman está baseado na tristeza elegante de um Frank Sinatra, sendo suas composições mais comoventes e incisivas. “Estou te deixando porque não te amo/ Me desculpe por esta triste verdade, Nicolle/ Me desculpe, eu não consigo te amar o suficiente”, abre o coração em “I’m Leaving You Because I Don’t Love You”. Esta brutalidade é marca registrada deste sueco de 26 anos, que não tem medo de escancarar os males e desabores do amor. Por vezes comparado a Jonathan Richman e até mesmo Morrissey, Lekman não baseia suas canções em emoções sublimadas ou contidas. Longe do duplo sentido, seu som é quase punk de tão romântico.

Seja falando de um fora que levou de alguém ou de coisas prosaicas como cortar o cabelo, Lekman se baseia no som vintage, que já experimentava nos dois discos anteriores When I Said I Wanted To Be Your Dog (2004) e Oh You’re So Silent Jens (2005). Vocais Motown, pianos sessentistas, sanfona e samples obscuros constróem o imaginário pop do cantor.

Sua amiga Sarah Assbring, do El Perro Del Mar, fez os back-vocals do álbum. A música de ambos tem muito em comum, a começar pela atmosfera pop-melancólica. Extremamente introspectivo, Lekman se cerca de amigos contados a dedo; poucos para entender seu romantismo quase cego.

O disco esconde histórias interessantes, como o nome do bairro vizinho a Gothenburg, Koterdala. Nesta cidade, uma imigrante espanhola cabeleireira, conversava sobre a Guerra do Iraque. Longe do conteúdo político, “Shirin” mostra a genialidade do cantor em dissecar o cotidiano e levar à emoção com simplicidade. Não por coincidência, a capa também faz referência a este episódio. A música de Jens não muda a cada disco, trazendo as mesmas características sempre. O que mudam são os acontecimentos, combustível para as composições e referências para a música deste sueco. Pode ser uma desilusão amorosa ou um simples fato do dia-a-dia.

Para os muito românticos, os que choram, rastejam, estão felizes, estão tristes, se apaixonam, escrevem cartas, esperam alguém no cinema e, sobretudo, sabem muito bem o que sentem e não aceitam esconder, o novo disco deste sueco é trilha sonora perfeita. [Paulo Floro]

NOTA: 9,5

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