DEMASIADO HUMANO
Biografia de Edgar Hoover fica imprensada entre o distanciamento histórico e a exposição de um homem infeliz e seu triste caso de amor

Por Paulo Floro

J. Edgar Hoover nunca foi um dos personagens mais carismáticos da história dos EUA, e como criador do FBI, sua figura parece distante para nós brasileiros. Mas, sua postura enigmática e trajetória cheia de controvérsia desperta interesse para essa biografia assinada por Clint Eastwood e que tem Leonardo DiCaprio numa transformação corporal tão convincente quanto assustadora para interpretar um dos homens mais poderosos que a América já viu.

Eastwood criou expectativa para este filme por abordar o ponto mais polêmico da vida de Hoover, sua homossexualidade não assumida. Por anos, ele escondeu ser gay e até hoje nunca foi mostrada uma prova cabal disso. Mas, suspeitas são muitas, entre elas está sua perseguição aos gays, sua relação muito íntima com a mãe, com quem viveu até os 43 anos e o fato de nunca ter se casado nem ser visto com nenhuma namorada. A maior de todas era sua companhia constante, o agente Clyde Tolson, seu herdeiro – e dizem, também seu amante.

Até chegar nesse ponto mais instigante de sua biografia, Eastwood nos leva à um maçante desenrolar que começa na sua juventude cheia de descrédito quando entrou no Bureau de Investigação até a criação e estabelecimento do FBI como uma das maiores forças institucionais dos EUA. Este primeiro momento do filme serve para criar uma ligação do público com DiCaprio, que está ótimo como Hoover. Mais do que sua muito bem feita maquiagem, que o transfigurou no personagem, e mais do que seus trejeitos precisamente parecidos com o original, o que chama atenção no trabalho do ator é como ele evidencia as nuances de Hoover.

DiCaprio consegue afastar a velha muleta de estereótipos que mostram Hoover como um homem ranzinza, duro e com uma obsessão em provar a eficácia do FBI, o projeto de sua vida. Estes elementos até estão presentes, mas a atuação deixa explícito uma pessoa insegura, incapaz de lidar com o próprio desejo que sente pelo assistente, alguém que tem medo da reprovação da mãe, obcecado pela aprovação pública, e no fim de tudo, extremamente infeliz.

Quando passamos da fase em que o FBI e sua gênese estão em evidencia na narrativa e passamos para o lado pessoal, o longa fica mais interessante. Sem deixar de abordar o lado político, Clint Eastwood consegue mostrar toda a humanidade do personagem ao retratar como a vida particular de Hoover influenciava sua carreira. Armie Hammer (os gêmeos de A Rede Social) está ótimo com o Clyde Tolson, com quem J. Edgar viveu uma relação nunca assumida até sua morte em 1972, de infarto. Os outros laços afetivos bem complicados são sua assistente Helen Gandy (Naomi Watts), com quem trabalhou por 40 anos e sua mãe, Anna Marie (Judi Dench).

Mesmo com tanta disposição de Leonardo DiCaprio para um papel tão difícil, o roteiro de Dustin Lance Black (Milk – O Preço da Liberdade) foi tímido no modo como a homossexualidade foi mostrada. O único beijo entre DiCaprio e Hammer mostrado no filme acontece durante uma luta e é desprovida de qualquer envolvimento. Também não há sexo. Talvez esse distanciamento exagerado – e respeitoso por demais – de Eastwood tenha prejudicado o filme e seu provável envolvimento com o espectador.

Afinal, com um personagem tão complexo quanto J. Edgar Hoover, a sobriedade de Eastwood talvez tenha dificultado as coisas.

J. EDGAR
Clint Eastwood
[J.Edgar, EUA, 2011]
Warner

Nota: 7,2

Sem mais artigos