Autor italiano reflete sobre amadurecimento e relações humanas em duas HQs lançadas no Brasil, A Entrevista e Cinco Mil Quilômetros por Segundo

Crítica: HQs de Manuele Fior e o exercício do olhar
NOTA9

O italiano Manuele Fior é um artista que entende o poder da observação. Esse capacidade tão humana de atribuir valor e sentimentos a partir da tão prosaica atividade de olhar e ouvir. Dois de seus mais importantes livros chegaram este ano ao mercado editorial brasileiro, a ficção distópica A Entrevista (pela Mino) e o aclamado Cinco Mil Quilômetros por Segundo (pela Devir). Os trabalhos são diferentes tanto na estética escolhida quanto pelas tramas, mas conservam uma narrativa e assinatura única de Fior, que pede ao leitor que faça um trabalho de observação essencial para apreciar sua obra em profundidade.

Comecemos com Cinco Mil Quilômetros por Segundo. O livro venceu dois dos mais prestigiados prêmios de festivais de quadrinhos do mundo, o melhor álbum em Angoulême em 2011 e Melhor Autor no Lucca Comics em 2010. Feito em aquarela, o trabalho parte de uma premissa bastante conhecida na tradição literária: o triângulo amoroso. Piero e Nicola são dois adolescentes que têm a rotina abalada com a chegada de Lucia, uma vizinha que logo se tornará o interesse amoroso de ambos. Mas o modo como o autor estrutura essa história é que faz desse gibi um dos mais primorosos exemplos de como o domínio das características únicas da linguagem dos quadrinhos produzem trabalhos igualmente únicos.

Cena de Cinco Mil Quilômetros por Segundo (Devir): contemplação.

Fior vai deixando informações visuais para pontuar a passagem do tempo e evolução dos personagens. O leitor, através da observação desses sinais, vai montando um panorama da história, que acaba por se tornar mais complexa do que se imaginava. Vamos descobrindo, por exemplo, que a chuva que abre os capítulos, conduz a narrativa ao clímax, iniciando minúscula até terminar em um torrencial tempestade.

O mesmo vale para o uso das cores pelo autor, que pontuam os sentimentos vivenciados pelo trio de personagens. Cada capítulo está permeado por uma coloração e seu imaginário, a exemplo do verde/ciúme, do vermelho/conflito, ou mesmo um amarelo vistoso que dá uma ideia de jovialidade, que é o capítulo inicial. O final, em lilás, rosa e roxo, nos alude a um crepúsculo, que é também o fim daquela relação entre os três.

Tudo é costurado de uma maneira tão meticulosa que quase não percebemos o fato de que os três personagens nunca se encontram ao mesmo tempo em cena, à exceção de um sonho (ou seria pesadelo?) de Piero.

Fior mais uma vez reflete sobre as relações humanas de maneira realista, mas generosa. Ele coloca um contraste entre o amor cheio de energia e sonhos da juventude com um momento mais centrado da maturidade, cheio de responsabilidades, etc. Mas deixa claro que sempre há de se conservar um pouco desse sentimento intenso da adolescência. O amor apenas muda de forma? Ou se aprende a amar de outra maneira?

Em A Entrevista, Fior novamente reflete sobre os relacionamentos, mas dessa vez fazendo uma análise mais social: questiona os conflitos geracionais e como a tecnologia modificou o modo como nos relacionamos. Ele usa analogias para criticar as redes sociais e os distanciamentos causados pelas relações mediadas por algoritmos. Mas vai além.

A trama se passa na Itália em 2048 e mostra Raniero, um psicólogo de meia idade que, após enxergar estranhos sinais luminosos no céu se vê obcecado por sua jovem paciente, Dora. Ela faz parte de um movimento filosófico baseado na não-exclusividade emocional e sexual e, assim como ele, também foi testemunha dos estranhos avistamentos do que parecem ser extraterrestres.

O estranho movimento do qual Dora faz parte questiona o modo como a sociedade se comporta e propõe um desapego total como forma de vida. Isso, claro, é disruptivo o suficiente para que esses jovens sejam vistos como “loucos”, “imorais”. Ranieri aos poucos vai desconstruindo essa imagem motivado tanto pelo seu fascínio por Dora quanto pela influências que os óvnis mantém sobre ele.

Uma das cenas mais lindas de A Entrevista (Mino), de Manuele Fior.

Em contraste com a paleta bem viva de cores de Cinco Mil Quilômetros por Segundo, aqui o autor manteve um tom sóbrio do preto e branco para montar a trama. Mas, assim como seu trabalho mais famoso ele também foi soltando elementos visuais para que o leitor possa montar sua interpretação. Neste gibi o olhar é mais demorado, o que leva a narrativa para momentos de bastante introspecção, como o uso de longas cenas no escuro completo, na contemplação de paisagens ou mesmo em detalhes ampliados em páginas duplas, como uma revoada de pássaros. A longa passagem em que Dora visita Raniero em sua casa e depois segue sozinha pelas ruas escuras é uma das mais belas cenas dos quadrinhos que já li.

Costurando os diversos elementos visuais, o leitor de A Entrevista se vê imerso em uma obra com diversas interpretações e sem solução. É um trabalho bastante meticuloso que discute temas grandes como passagem do tempo, relações humanas, tecnologia, tudo conduzido por um autor com um domínio habilidoso das possibilidades criativas das HQs. Que venham mais trabalhos de Fior ao Brasil!

A ENTREVISTA
De Manuele Fior (texto e arte)
[Mino, 176 páginas, R$ 64,90]
Tradução de Michele Vartuli

Avaliação: 8,5

 

CINCO MIL QUILÔMETROS POR SEGUNDO
De Manuele Fior (texto e arte)
[Devir, 144 páginas, R$ 74 / 2018]
Tradução de Renata Leitão

Avaliação: 9,0

 

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