Van Gogh, Paul Gauguin, Toulouse-Lautrec, Gustav Klimt e Francisco de Goya entram numa taverna. O que pareceria uma enfadonha proposta em tom de anedota ganha nesta HQ de Davi Calil um dos tratamentos estéticos e narrativos mais ousados da HQ nacional este ano. Um Noite em L’Enfer coloca em um mesmo espaço nomes lendários da pintura para explorar os demônios de cada um e como isso refletiu-se em suas produções.

A história começa em Arles na França em 1891 quando Van Gogh, sobrevivente de uma tentativa de suicídio, segue em busca de sua amante, Sien. Se na vida real o famoso pintor realmente se despede do mundo dos vivos, na HQ de Calil o pintor, com o ferimento de bala cicatrizado, parte para Paris, onde encontra alguns de seus contemporâneos.

Calil mergulhou na biografia de cada um para criar as tramas da HQ. Depois de encontrar Gauguin no caminho para a taverna que dá título à obra, Van Gogh é recebido pelos colegas pós-impressionistas Klimt e Toulouse-Lautrec, além do centenário Goya, que nem era contemporâneo desse pessoal todo, mas surge aqui como uma figura misteriosa e perturbada, como suas obras. Os enredos saem das histórias contadas por cada um, adicionados de uma dose de romantismo e liberdade poética de Calil. Livremente inspirado em Uma Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, Calil traz o ultraromantismo para os quadrinhos brasileiros.

Hoje um dos nomes mais importantes da atual geração de quadrinistas brasileiros, Calil é autor de Quaisqualigundun, que conta a história de Adoniran Barbosa e Surubotron, além de ser um dos fundadores do coletivo Dead Hamster. Professor de pintura, o autor faz uma homenagem aos seus ídolos ao mesmo tempo em que faz referências a diversas obras famosas, como O Beijo (1908), de Klimt, Saturno Devorando Um Filho (1823), de Goya, além de incluir coadjuvantes como o próprio Azevedo, Dante Alighieri e Satã em suas histórias. O tom cartunesco de seu traço, aliado às cores dramáticas, fazem da HQ um projeto estético bem sofisticado. A pesquisa histórica e artística e o modo como o autor concatenou episódios reais dentro desse seu universo paralelo são justificativas para chamá-la de brilhante.

A obra ainda tem um posfácio bem interessante para quem quer alongar ainda mais a estadia nesse universo romântico dos artistas plásticos mostrados na obra.

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