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Mangá “” traz olhar das crianças sobre tristeza e abandono

Por Paulo Floro

O drama psicológico sempre foi uma das marcas do mangá japonês. Feridas (Kizu), que ganha edição nacional pela JBC, faz parte do panorama de obras cheias de delicadeza. Mostra a história de amizade entre dois amigos no colegial e trata de temas como aceitação, abandono, família e morte.

A trama foca em Keigo, um menino de 11 anos que foi abandonado pela mãe e cujo pai violento e abusivo vive em estado vegetativo em um hospital. Sofre bullying na escola por não ter uma família “normal” e sofre para se sociabilizar com outros alunos. Tudo muda ao conhecer Asato, jovem da mesma idade e igualmente problemático quanto a fazer amizades.

Asato possui o dom de transferir as feridas de qualquer pessoa para seu corpo ou de outra pessoa. Os dois amigos iniciam uma série de aventuras onde passam a realizar pequenas boas ações ao curar ferimentos. Keigo achou o receptáculo ideal para as feridas: seu pai hospitalizado.

O mangá usa esse tom fantástico para tratar de temas tristes como o abandono infantil. Os dois jovens protagonistas estão perdidos em seu mundo e foram alienados do cuidado adulto. É também uma reflexão sobre a falta de empatia do mundo adulto com o universo particular das crianças. Feridas consegue traduzir para os quadros o olhar muito próprio das crianças, com toda sua ingenuidade e sensibilidade. E no fazer artístico poucas coisas são tão difíceis de atingir quanto tornar verossímil a representatividade da criança real, tanto no tom quanto na linguagem.

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O autor do conto original que se baseou a HQ, escreveu Feridas após ter contato com o livro Filhos dos Outros, de Torey Hayden, psicóloga norte-americana especializada em alunos especiais. A ideia foi mostrar como é a relação dos adultos em relação às crianças e seu modo particular de ver o modo. Mas Feridas é também uma bela obra para se debater a tristeza e o desamparo, sentimentos poderosos que produzem impactos em qualquer idade que seja.

A arte de , mesmo autor de Another, é fluída e dinâmica. Abusa dos momentos expressivos típicos do mangá, como os closes e a ambientação subjetiva. Tudo isso torna a obra ainda mais dramática – o que combinou com o tom da história. Em uma proposta mais realista, talvez soasse melodramático demais. Mas como é uma narrativa do ponto de vista das crianças, o estilo lúdico veio bem a calhar.

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Otsuichi (texto) e Hiro Kiyohara (adaptação e arte)
[JBC, 200 páginas, R$ 13,90]
Tradução: Edward Kondo

8,5

 

Veja mais um preview da obra:

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