Foto: Divulgação/DC Comics.

Foto: Divulgação/DC Comics.

traz histórias de máfia no melhor estilo Família Soprano

Por Paulo Floro

O lendário quadrinista (American Flagg) criou uma abordagem interessante dos vampiros. Em Clube Vampiro, série da Vertigo que a Panini acaba de lançar no Brasil, ele imaginou os sanguessugas como peças importantes do crime organizado. Ao lado de , ele fez uma espécie de Família Soprano bebedora de sangue, com trama recheada de traição, intrigas familiares, corrupção e drogas.

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A história se passa em Miami, nos EUA. O patriarca da família, Eduardo Del Toro, é assassinado e dá início a uma intrincada luta pelo poder do chefão do crime organizado na cidade.

Ele deixou três filhos, todos com seus segredos e vulnerabilidades, mas igualmente perigosos. Risa, uma vampira linha dura dona de uma gravadora, que não nutre nenhuma compaixão pelos humanos; Eddie, cuja maior preocupação é livrar seu filho adolescente Danny de problemas, e Leto, um padre que sofre para conter a predisposição da família pelo crime e pouco apreço pela vida alheia. O problema é que o testamento de Eduardo o encarregou de tomar conta dos negócios.

Chaykin imaginou os vampiros como uma alegoria dos imigrantes nos EUA e sua atuação no País ao longo dos anos. A família Del Toro parece exemplificar o desconforto de latinos, italianos e outros grupos que chegaram à América ao longo do último século. Eles sofrem preconceito nas mais variadas instâncias e classes sociais e, cada um a seu modo, desenvolvem maneiras de sobrepujar o determinismo histórico.

A arte das capas é de Frank Quitely. (Foto: Divulgação/DC Comics).

A arte das capas é de Frank Quitely. (Foto: Divulgação/DC Comics).

A partir do olhar de Leto vemos todas as entranhas dos negócios da família, que incluem um milionário negócio envolvendo o desenvolvimento de uma droga ligada aos vampiros e tratamentos de doenças que atingem percentagens minúsculas da população. Como esses remédios não são produzidos em massa, eles cobram caríssimo por eles.

Como é o mais próximo aos humanos, a experiência de transformação de Leto ao longo da história prende a atenção do leitor. Imortais e superpoderosos, Chaykin e Tischman gastam pouquíssimo tempo nessa parte mais espetacular da história dos vampiros – o que é ótimo. Já bastante explorado por outras mídias, os poderes vampíricos pouco adicionariam a essa história que mistura política e drama familiar. Já o ingrediente sexual – imprescindível para toda obra sobre vampiros – está bem representado. Como lembra os autores, o vampiro apareceu na ficção gótica como uma confrontação à moralidade rígida da era vitoriana. Ainda hoje, séculos depois, eles são representações contra a hipocrisia vigente ao darem vazão aos seus desejos, por mais cruéis que sejam.

Apesar do bom argumento, a HQ falha apenas na condução da trama, que ganha contornos batidos quanto à personalidade dos personagens. O estilo linha dura de Risa já foi muito bem tratado nas histórias de Garth Ennis em Preacher e Justiceiro, por exemplo. Além disso, as referências a O Poderoso Chefão até se tornam interessantes por algumas páginas, mas em seguida se tornam entediantes. Os roteiristas também se escoraram bastante nos estereótipos da Vertigo, como a violência estilizada.

A HQ abusa da violência ao estilo Vertigo. (Foto: Reprodução/DC Comics).

A HQ abusa da violência ao estilo Vertigo. (Foto: Reprodução/DC Comics).

A arte de , com sua linha clara e enquadramentos sóbrios ajudaram a focar atenção na trama. Mas são as cores de Brian Miller o trabalho que mais chama atenção. Ele usou uma paleta de cores para cada cena, traduzindo a emoção necessária para cada parte da história.

Ainda que esteja distante dos clássicos de Chaykin, Clube Vampiro é uma interessante abordagem dos vampiros. E para quem ainda não se cansou desses personagens enquanto conceito, vale uma lida. Lançada como minissérie lá fora, Clube Vampiro ainda tem ainda outro volume além desse, o que deve ser lançado pela Panini em breve.

clube_vampiroCLUBE VAMPIRO
Howard Chaykin, David Tischman (roteiro) e David Hahn (arte)
[Panini Comics, 158 pags, R$ 19,90 / 2014]
Tradução: Mário Luiz C. Barroso

Nota: 7,5

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