Foto: Divulgação.

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UM RIO QUE PASSOU
relata a história dos rios soterrados na cidade de São Paulo

Por Paulo Floro

É difícil construir mentalmente a imagem, mas São Paulo é uma cidade das águas. Uma das maiores metrópoles do planeta possui parte de seus três mais importantes rios canalizados embaixo de ruas e prédios.

O roteirista e o desenhista se inspiraram na peça de teatro “Origem/Destino” para criar a HQ Cidade das Águas, que acaba de sair pela editor Pólen. Na montagem teatral original os atores saíam por ruas de São Paulo para fazer um traçado dos rios da cidade que foram soterrados para a construção de portentosas avenidas e construções paulistanas.

Os atores pegavam ônibus junto com o público e encenavam tudo no meio da rua misturando registros históricos, ficção e depoimentos reais de transeuntes. A HQ tenta refazer a mesma experiência com o leitor através de cinco personagens que percorrem os mesmos bairros, como Santo Amaro, na Zona Sul, local onde se encontram diversos mananciais.

A estratégia de canalizar os rios em São Paulo teve início nos anos 1920 com as obras do prefeito Prestes Maia, chamado na HQ de “o incrível Homem-Concreto”. Em uma das passagens mais interessantes da obra, o gestor trava uma batalha histórica com outro personagem importante, Saturnino de Brito, engenheiro sanitarista que criou um documento com melhoramentos para o Rio Tietê (nunca implantado) e que alertou para a importância da conservação da águas na cidade.

A HQ chega em um momento delicado na cidade de São Paulo, que vive uma das piores crises de desabastecimento com a seca de seu principal reservatóio, o sistema Cantareira. Uma cidade de várzea, com três rios que se encontram, vive hoje uma grande falta d’água, a maior das últimas décadas. Chega a ser tão trágico quanto irônico.

Mas a importância da obra vai além dessa conjuntura: traz uma crítica ao desenvolvimento irresponsável que negligencia não só o meio ambiente como a memória da cidade. Isso vale como reflexão não só para SP como para cidades como Recife, que também vive um momento de destruição de sua memória em prol de construções sem nenhum vínculo afetivo com a história.

A HQ consegue trazer imagens e metáforas interessantes. Mas a obra peca pela narrativa engessada, que muitas vezes trava a fluidez da leitura. O tema parece pedir um traço mais arrojado e alguma ousadia estética, o que não aconteceu na maior parte do tempo. Mas Cidade das Águas consegue mandar seu recado ao trazer à tona uma riqueza que a história escondeu sob o concreto.

CIDADES DAS ÁGUAS
Guilherme Caldas e Olavo Rocha
[HQ Pólen, 70 págs, R$ 25 / Brasil]

8,0

cidade 4

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