Foto: Divulgação.

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traz às HQs o melhor dos épicos de fantasia – mas com humor

Por Paulo Floro

Existe um apelo em Bone, clássica HQ de Jeff Smith, que remonta aos mitos e sagas com a trajetória do herói. É uma história de peregrinação, retorno ao lar e enfrentamento de desafios e inimigos que já vimos em obras como O Senhor dos Anéis, Peter Pan, As Crônicas de Nárnia, entre outros. Há ainda reinos fantásticos, criaturas esquisitas e feitos impossíveis.

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Mas o que faz da criação de uma das mais importantes obras do quadrinho moderno? A explicação talvez esteja no entendimento que Smith tem dos cartuns clássicos do início do século passado e do poder da narrativa aventuresca mais básica. A partir desses estudos ele criou uma trama grandiosa estrelada por seres fofinhos e quase amorfos, os Bones, que tentam retornar à sua terra natal, Boneville.

A trama do primeiro volume nos apresenta aos primos Phoney, Fone e Smiley Bone. Sabemos sobre eles, apenas que foram expulsos de sua comunidade após um deles tentar obter vantagens da população. Caminhando por um Vale, eles encontram humanos, perigosas ratazanas e um dragão, cujos atos deixam dúvidas sobre suas reais intenções.

Smith deu poucas características à personalidade de cada um e explora isso ao máximo. É um dos elementos que ele tirou das histórias clássicas de fantasia e também dos cartuns. Temos o protagonista esperto, o bobalhão e o aproveitador. Ao se separarem, todos passam por provações, perigos, mas tentam se reencontrar a todo custo. Os humanos surgem com um traço mais realista, bem com os cenários, o que mostra o talento de Smith em equilibrar a grandiosidade épica da narrativa com a simplicidade do traço cartunesco.

Série nunca chegou a ser finalizada no Brasil (Foto: Divulgação/JeffSmith.com).

Série nunca chegou a ser finalizada no Brasil (Foto: Divulgação/JeffSmith.com).

A jornada dos primos Bone é repleta de humor, ação, romance e tem uma das tramas mais amarradas e intrincadas do quadrinho norte-americano.

Lançada de forma independente em 1991, Bone tornou-se um fenômeno editorial. Smith criou a Cartoon Books para lançar seu próprio material, que logo chamou atenção de lojistas e leitores. A empresa chegou ao fim após a última edição de Bone, em junho de 2004. A jornada do autor modificou o panorama do quadrinho alternativo dos EUA, cujo ápice criativo dos anos 1970 tinha arrefecido. Ao deter os direitos sobre sua obra, Smith militou para que sua produção fosse escoada para comic-shops em todo o País. Isso em uma época em que não existia internet ou e-commerce que prestasse.

Aqui no Brasil, Bone sempre sofreu para ser publicado. A Via Lettera teve uma publicação bastante confusa – além de cara – da obra. Os nove volumes foram divididos em 18 álbuns preto e branco, dos quais apenas 14 saíram. Depois, a Devir tentou lançar desde o início, desta vez colorido, mas enfrentou problemas com a Via Lettera, que reclamava os direitos para si.

Agora, a HQM Editora retoma a obra desde o volume 1. Desta vez percebemos um maior cuidado com o material de Jeff Smith, que sairá em nove volumes com cores de Steve Hamaker. Bone – Fora de Boneville tem um bom cuidado no acabamento, com logotipo brilhante e papel de alta qualidade. Faltou apenas uma introdução com apresentação da obra e do autor e seu contexto no mundo dos quadrinhos. Mas, certamente, Bone está em boas mãos agora. Que finalmente possamos ver o final da trajetória dos primos aqui no Brasil.

boneBONE VOL. 1 – FORA DE BONEVILLE
De Jeff Smith (texto e arte)
[HQM, 146 págs, R$ 49,90 / 2015]
Cores: Steve Hamaker
Tradução: Andreia Prenholatto Ferreira

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