Crítica-HQ: Ayako e as dores do Japão no pós-Guerra
NOTA10

Clássico de Osamu Tezuka trata da violência que foi a transformação japonesa após a rendição na Segunda Guerra Mundial e debate temas como sexismo, tradições e corrupção

Osamu Tezuka sempre atuou como um receptáculo das dores e ansiedades do Japão do século 20, seja em seus trabalhos mais populares como Astro Boy e Kimba – O Leão Branco, seja em obras mais voltadas para um público adulto como é o caso de Adolf e este Ayako, que acaba de ganhar edição brasileira. Trata-se de um épico familiar que acompanha as transformações de uma sociedade imersa em uma violenta ameaça aos costumes, uma ocidentalização forçada, humilhada pela derrota na Segunda Guerra Mundial e que se vê obrigada a lidar com as contradições evidenciadas no pós-Guerra, como a corrupção na política e as relações patriarcais extremamente machistas.

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Tezuka imprimiu uma sensibilidade que chega a desconcertar. Poucas vezes damos de cara com a perspectiva dos perdedores, e mais ainda, somos convidados a refletir as agruras de um povo para além de seu vitimismo. As narrativas do Japão do pós-Guerra resumem-se, em geral, em uma história calamitosa de um povo aguerrido que apenas aceitou a rendição após o extremo de duas bombas atômicas. HQs como Gen – Pés Descalços (de Keiji Nakazawa) e o livro-reportagem Hiroshima, de John Hersey, exploram bem as repercussões desse ato hediondo na vida das pessoas.

Ayako, enquanto panorama histórico, vai mais além e mostra uma sociedade cheia de contradições a partir da saga da família Tenge, um clã de origem aristocrática que começa a sentir as mudanças provocadas pela derrota na Guerra. Com participação de estrangeiros, o Japão inicia uma reforma agrária que afetou bastante as relações entre latifundiários seculares e agricultores pobres, que antes atuavam como servos. Jiró Tenge, um dos filhos, volta para casa após passar anos como prisioneiro de americanos na Guerra. Ele é recebido com desdém pelos habitantes do povoado e sua família o enxerga como uma vergonha, alguém que desonrou o legado de séculos por ter sido feito cativo. Atuando como agente duplo e envolvido com esquemas políticos ilegais ele é obrigado a assassinar um líder da esquerda local, o que acaba afetando toda a família.

A personagem-título, Ayako, então uma menina de cinco anos, é a principal afetada dessa trama. Por ser a única testemunha sobrevivente de um ato hediondo cometido por Jiró, toda a família decide mantê-la prisioneira em um porão para o resto da vida. A narrativa inclui um intrincado suspense que é desvendado a conta-gotas e que inclui ação, drama e romance. A história traz temas como política, luta de classes, além de tecer críticas do tratamento dado ao país pela comunidade internacional. É impressionante a versatilidade de Tezuka para atuar em diversos gêneros, sempre com um estilo muito próprio: traço simples e emoções exacerbadas.

O livro tem dois momentos bem distintos, em que as o substrato político, ou seja, as inspirações da vida real, passam a determinar o rumo da história. No início somos confrontados com uma violenta transformação do Japão da Guerra Fria, em que a corrupção, as tramas político-partidárias e as relações de classe ganham força na trama. No segundo momento, após a revelação de um terrível segredo dos Tenge, o mangá passa a acentuar no enredo a violência de gênero, o abuso sexual e o modo como a sociedade japonesa tratava a mulher. Incesto, estupro, terror psicológico e alienação são algumas das agruras pelas quais passam todas as mulheres, sobretudo a personagem-título, Ayako.

Condenada a viver presa em um porão, ela desenvolveu uma aversão ao contato com a realidade. Não suportava ter que lidar com situações do cotidiano e aprendeu, de forma distorcida, questões como amor e sexo. Tezuka a imaginou como um ser puro, inocente. Sua presença apenas evidencia a tentativa do autor em expor a degradação do Japão na segunda metade do século 20. Essa segunda parte da HQ também destaca as lutas de gangues que explodiram no país com força a partir dos anos 1950.

Os personagens de Tezuka possuem complexidade e nuances que chegam a desconcertar quem está acostumado a uma redenção moral proporcionada pela ficção ocidental. Aqui o destino parece inexorável e o que o autor faz é evidenciar essa degradação como comentário de uma sociedade falida. A mira do autor é, sobretudo, a elite política e econômica, cuja hipocrisia e cinismo se escondem atrás de um suposto respeito às tradições. Ayako, a personagem, é a lembrança incômoda de um passado que já não é mais possível. As mudanças que aconteceram a partir da Guerra Fria no Japão vieram repletas de violência e injustiças e todos, à sua maneira, tentaram se adaptar das piores maneiras, seja através da busca sedenta por poder, seja pela falta de escrúpulos em relação ao próximo.

Até mesmo o personagem Shiró, que inicia a obra como um jovem idealista, termina como um receptáculo de toda a sujeira da família. Ele acaba sendo o último elo afetivo da pequena Ayako, mantida prisioneira por décadas.

Lançada originalmente em 1972 na revista japonesa Big Comic, esta é a primeira vez que a obra sai no Brasil. A edição brasileira foi bem caprichada, com diversas notas de rodapé e capa dura. Foi também a primeira vez que os dois desfechos imaginados por Tezuka foram publicados no Ocidente.

Tido como o “deus do mangá”, Osamu Tezuka trouxe inovações estéticas e narrativas, mas uma de suas maiores contribuições, sem dúvida, foi a sensibilidade que tratou de temas de seu próprio tempo. Parte dos acontecimentos mostrados nessa HQ foram vivenciados pelo autor, cuja carreira iniciou logo após a rendição do Japão. Por isso nesta e em várias outras obras há um tom de indignação em relação à guerra. Tezuka sempre militou em tornar o mangá um veículo inovador, que pudesse se comunicar com todos os públicos e abordar os mais diversos temas. Ayako é prova disso.

AYAKO
De Osamu Tezuka
[Veneta, 724 páginas, R$ 129,90]
Tradução de Marcelo Yamashita e Esther Sumi
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