Foto: Divulgação.

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traz drama político e familiar na era Putin

Por Paulo Floro

O filme Leviatã parece em um primeiro momento algo bem localizado do momento atual da Rússia de Vladimir Putin. Mas o longa indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano está longe de ser apenas uma produção sobre a corrupção russa. Sem perder o foco no drama humano, o diretor entrega uma jornada de lutas inglórias do homem comum contra o sistema. É quase uma versão do Livro de Jó regada a vodka e cigarro.

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Estamos em um vilarejo russo à beira do mar. Kolia (Alexeï Serebriakov) é um homem comum que cuida de sua propriedade ao lado da mulher, Lilya (Elena Lyadova) e do filho adolescente (Sergey Pokhodaev). O cotidiano inexorável do lugar sofre uma reviravolta com a notícia de que eles podem perder tudo com a desapropriação da área para uso da prefeitura local. Kolia conta então com a ajuda de um amigo advogado interpretado por Vladimir Vdovitchenkov para garantir na justiça o direito à terra.

Zviaguintsev tem uma mão pesada na direção e roteiro e traz um olhar duro sobre os russos, sem condescendência com nenhuma classe social. O retrato que ele pinta de seu próprio povo chega a ser cruel e diz muito sobre a decadência social que se abateu sobre a Rússia passadas algumas décadas do fim do socialismo. O maior mote aqui é expor a montanha intransponível de corrupção que entrava as relações entre as pessoas, seja no âmbito do trabalho como no lado pessoal.

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Em seu lado de thriller político, Leviatã se torna o mais importante filme russo de seu tempo por mostrar as estruturas estagnadas do pós-socialismo e as relações promíscuas entre igreja e estado. Ao olhar o presente, Zviaguintsev mostra coragem em mostrar o lado mais perverso dos tempos atuais de Putin. E faz isso com humor, sarcasmo e (muito) drama. É uma abordagem bem direta que deixa o tom poético apenas para as tomadas longas da paisagem inóspita da região.

Passado em uma região remota sem muitos símbolos russos evidentes, o diretor conseguiu falar diretamente a audiências que conhecem de alguma maneira as injustiças contra o lado mais fraco da História. Na tentativa de conseguir salvar sua terra, Kolia passa pelas piores provações possíveis, mas segue firme nas suas intenções. Neste ponto o longa se assume como um drama familiar e humano dos mais contundentes já feitos.

O diretor usa os cenários grandiosos para dar corpo a uma narrativa tensa e desconfortável ao espectador, que sente que todo aquele esforço dos personagens será inútil. A alma humana resulta em uma matéria prima mais relevante que o contexto político. Ao longo da luta desigual de Kolia contra o prefeito ficamos imersos naquele ambiente, igualmente perdidos e embriagados nessa torrente de sofrimento e vodka.

530286.jpg-r_160_240-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxLEVIATÃ
De Andrey Zviaguintsev
[Leviathan, RUS, 2014 / Imovision]
Com Alexeï Serebriakov, Elena Lyadova, Vladimir Vdovitchenkov

8,5

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