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NÃO TINHA MEDO TAL JOÃO, ETC…
Com medo de desagradar, se arrisca pouco, mas acerta ao tratar da questão racial sem muito rodeios

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

Ao final do filme Faroeste Caboclo, saímos do cinema com a impressão que o diretor estreante conseguiu se apropriar de alguma maneira da história criada pelo compositor e líder da na canção de mesmo nome. E ainda por cima, conseguiu dar vida a uma Brasília que não existe mais e que foi bem ambientada em tela. Mas, o longa tropeça na própria pretensão de atingir um público amplo amante da música, abrindo mão de qualquer ousadia ou desafio de linguagem.

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É o que podemos chamar de “efeito Malhação” na juventude brasileira dos anos 2000, pouco disposta a encarar obras que tentem quebrar qualquer paradigma, que sejam disruptivas. Por isso, na linguagem, Faroeste Caboclo segue uma fórmula muito correta com o cuidado imenso em ser comedido com uma possível grande audiência (a aposta no sucesso de bilheteria é alta). Então temos uma violência plástica, bem encenada, mas sem choque. O sexo, higiênico, mais parece uma performance de dança.

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Este direcionamento mais brando na linguagem e na narrativa acaba fazendo um link com as mudanças que o roteiro (assinado por Marcos Bernstein, o mesmo de Somos Tão Jovens) fez na história de . Aqui, o eixo central foi deslocado para a história de amor proibida entre João de Santo Cristo, um retirante que se tornou traficante em Brasília e Maria Lúcia, uma menina burguesa filha de um senador. No drama de não poderem ficar juntos, conhecemos o gritante racismo do país na época da ditadura militar e a disparidade na luta de classes na capital do país. No original, fez de João um outsider desde os primeiros versos. É um anti-herói revoltado, violento e não uma espécie de mártir, um injustiçado, como é o caso no longa.

Mas é injusto julgar o longa apenas por essas mudanças no argumento da história. Um dos seu maiores méritos foi tratar da questão racial sem muito rodeios e ainda mais em uma obra pop, de muito apelo. As mudanças no roteiro, além de outros trechos inventados, fez com que o diretor René Sampaio criasse uma obra própria, com uma assinatura. Ao lado da fotografia de Gustavo Hadba (Lula, O Filho do Brasil), ele criou uma Brasília de antigamente, formada por pessoas deslocadas, entediadas e com uma juventude que tratava com cinismo a falta de democracia. É nesse ambiente que o filme insere a questão das drogas. Ao final, o faroeste propriamente dito, ganha cores tarantinescas nas cenas finais em um final conhecido pelas diversas gerações que aprenderam de cor a letra criada por Renato Russo.

Ao final, diz a letra, João de Santo Cristo queria apenas falar com o presidente sobre problemas dos brasileiros. No filme, seu maior sonho era ter uma boa vida com a mulher que amava.

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De René Sampaio
[BRA, 2013 / Europa Filmes]

Nota: 7,4

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