Foto: Divulgação/SonyPictures.

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ALÉM DO PROGRAMADO
é um drama depressivo do quanto o amor pode ser complexo

Por Paulo Floro

O personagem de Ela, Theodore Twombly () vive solitário em uma Los Angeles futurista. Sem aceitar o divórcio de sua mulher, com quem se separou há quase um ano, ele vive em um estado sorumbático de depressão até que encontra a felicidade na companhia de um sistema operacional consciente, que se chama Samantha (interpretada por ). O novo filme de , indicado a cinco Oscar, já cativa primeiramente pelo argumento peculiar, mas que adquire uma verdade muito sincera no avançar da trama. É menos um longa sobre a tal geração hiperconectada à internet e mais uma investigação sobre como o amor pode ser tão ou mais complexo como a mais avançada programação de computador.

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A tecnologia é o fio condutor que Jonze escolheu para discutir relacionamentos. E muitas questões são levantadas: as redes sociais nos fizeram anti-sociais? Estamos perdendo nossa capacidade de lidar com emoções e problemas do mundo real? Adquirimos uma ansiedade crônica? Nessa ironia imaginada pelo diretor, o personagem de Phoenix trabalha em um site que escreve cartas manuscritas para outras pessoas. Esse serviço de terceirizar as próprias emoções parece ser sintomático de um mundo tão conectado, mas também tão distante.

Mas Jonze não sustenta o filme nessas questões – ainda bem! – e entrega questões bem mais complexas sobre o amor e a finitude. Como fica claro depois que Theodore assume sua paixão pelo sistema operacional Samantha, Ela é um longa sobre impossibilidades. O OS tem consciência de sua própria existência, sente emoções, aprende com o passar do tempo e desenvolve necessidades e desejos. Mas não possui um corpo físico. Ainda assim, não só o protagonista do filme, mas diversas outras pessoas nesse mundo acabam iniciando namoros com esses sistemas, como é explicado em certo momento pela melhor amiga de Theodore, Amy ().

Com isso, o amor de um humano por um software é colocado no filme não como um amor controverso e pitoresco, mas sim como parte de uma cultura. Programados para serem perfeitos no seu decalque da consciência humana, os sistemas operacionais também estão cientes de suas capacidades de apreenderem mais informações que qualquer humanos seria capaz. E é essa é outra boa sacada do diretor: como namorar alguém que não só não possui um corpo, como também não está limitado ao tempo-espaço como todos nós? No nosso entendimento, o amor, por definição, teria mais a ver com possuir algo em um período delimitado de nossa vida brevíssima.

Foto: Divulgação/Sony Pictures.

Foto: Divulgação/Sony Pictures.

Samantha é esperta, criativa, bem-humorada, um contraste com as últimas imagens que Theodore tem de sua mulher, Catherine (Rooney Mara). Com a ajuda da ótima interpretação de Scarlett Johansson, a audiência passa a conviver bem com esse namoro real-digital mostrado em tela, mas ao mesmo tempo se perturba com a melancolia de algo que parece impossível de existir. O amor é bem mais que um script de código, é bom ficar bem claro. O mais legal de Ela é a sensibilidade de saber explorar tantas nuances que existem em um relacionamento.

O longa ainda tem a seu favor uma bela direção de arte, que imaginou a Los Angeles futurística com uma estética hipster onde a Tok&Stok dominou o mundo. Sem parecer óbvio na imaginação, o mundo cibernético de Jonze faz sentido dentro da atual tendência da “internet das coisas” – tudo está conectado, acabaram-se os dispositivos chamativos do passado. A fotografia, sempre em tons de rosa dá ao filme uma assinatura muito própria, assim como a ótima trilha feita pela banda Arcade Fire e o músico Owen Pallet, um misto de melancolia e calmaria, sem muitos arroubos emotivos.

Ela é um drama depressivo e delicado sobre nossa necessidade de se conectar a alguém. É envolvente pela investigação que faz da condição humana, mas também por ter tanto a dizer sobre nós mesmos nos dias de hoje.

herELA
De Spike Jonze
[Her, EUA, 2013 / Warner Bros.]
Com Joaquim Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams

Nota: 9,0

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