Robert de Niro e Martin Scorsese nas gravações de Touro Indomável: Hollywood dissecada

ESPIRÍTO DO SÉCULO ROCK’N ROLL
Livro narra a história de uma geração brilhante de cineastas e mostra que muitas vezes o glamour se torna um pesadelo

Por Germano Rabello
Colaboração para a Revista O Grito!, no Recife

“Ir pra casa pra quê? Para ficar pensando em você trepando com a Cybill? Esse filme é tão meu quanto seu. Você só tem sentimentos por pessoas de celulóide. Você não tem noção do que é sentir dor na vida real. Imagine que isto está acontecendo num filme, Peter, e talvez você entenda.”

A frase está na página 133 do livro Como a geração sexo-drogas-e-rock´n´roll salvou HollywoodEasy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind. Parte de um diálogo entre o casal Polly Platt e Peter Bogdanovich, que ilustra o quanto a vida real e o cinema se confundem só para tornar mais interessante a leitura deste livro (o diretor iniciara um caso com Cybill Shepherd, protagonista de seu filme ainda em produção, A Última Sessão de Cinema).

Vamos às credenciais: Peter Biskind, o autor, tem vasta experiência com o universo do cinema, seja como editor-executivo da revista Premiere ou fazendo textos para a o New York Times, Rolling Stone, etc. O assunto do livro é tão vasto quanto fascinante. É sobre a mudança que representou a chegada de jovens diretores numa Hollywood que estava estagnada. Numa época em que se faziam caros e sem sintonia com o público, alguns diretores mostravam novas abordagens, muitas vezes conseguindo arrecadar bilheterias fabulosas somente por mostrar coisas nunca vistas antes. Os filmes abordados cobrem uma época que produziu desde Sem Destino a Touro Indomável (razão do título em inglês, bem mais legal: Easy Riders, Raging Bulls), ou seja, final dos anos 1960 até o início dos anos 80. Estão lá Scorsese, Spiebelberg, Altman, Bogdanovich, Polanski. Estão lá O Poderoso Chefão, Bonnie & Clyde, Star Wars. Se você gosta de cinema, é quase impossível que não se interesse.

Mas a saga dos jovens cineastas que modificaram para sempre a indústria cinematográfica é fascinante justamente pelo que tem de mais humano. Por mostrar os caminhos tortuosos que percorria cada roteiro até começar a ser filmado. Mostrar o quanto cada diretor se empenhava em se libertar das amarras dos produtores de Hollywood para realizar a sua visão pessoal do que era (ou deveria ser) o cinema. Mostra como filmes bastante improváveis, que foram feitos apenas porque custavam barato, desbancaram superproduções com elenco de luxo, se tornaram fenômenos de bilheteria, simplesmente porque refletiam o espírito da época, deixando os velhos executivos com a sensação de que não sabiam de nada e era melhor deixar os novos diretores fazerem seu trabalho com menos interferência. Essa geração era formada por pessoas muito jovens, que despertavam desconfiança por sua pouca experiência, por suas idéias “prafrentex”, costumes diferentes.

Muitas vezes, entra-se em territórios de moralidade nebulosa junto com os protagonistas do livro. “Ele gostava de manipular os atores, gostava de truques. Mas ele foi sempre correto comigo, a não ser quando lesou minha coluna permanentemente”. A frase da atriz Ellen Burstyn se refere ao processo de filmagem de O Exorcista (1973) e mais especificamente ao diretor William Friedkin. É um dos lados da moeda mostrados ao longo do livro: o sonho de fazer filmes pode facilmente se tornar um pesadelo. Os métodos de Friedkin não eram nem um pouco sutis e podiam incluir agressão física.

Outra coisa das mais interessantes é ver diretores como Coppola e Spielberg desprezando os projetos que os tornariam famosos (O Poderoso Chefão e Tubarão). E ainda mais com o Star Wars de George Lucas, que parecia um desastre eminente (Spielberg foi um dos únicos a prever o seu sucesso). E como estes sucessos foram moldando novas estratégias de distribuição e marketing, novos parâmetros para a indústria, que após um período em que praticamente tinha ficado refém dos diretores, voltou a exercer um controle maior sobre o que se vê nas telas. Se você gosta de cinema, não hesite e dê um jeito de ler.

COMO A GERAÇÃO SEXO-DROGAS-E-ROCK’N ROLL SALVOU HOLLYWOOD
Peter Biskind
[Intríseca, 520 págs, R$ 44]

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