“Eu tenho que fazer as coisas à minha maneira/Será que você vai me deixar em paz?/Será que você vai me respeitar?/Faço as coisas à minha maneira, queridinha…/Deixe-me crescer” Essas são as considerações iniciais do mais recente álbum de Rihanna, ANTI. Com esse trabalho a cantora quer se distanciar do pop convencional e apresenta uma sonoridade mais adjacente, obscura e diversificada, destoando – em parte – de seus discos anteriores. Como em uma montanha-russa, as faixas oscilam disparidades e, à primeira audição, causam estranhamento. E nesse motim de sentimentos abruptos, a artista de Barbados expõe um amadurecimento bruto e sorrateiro.

Desde 2014, a cantora já dava indiretas sobre o lançamento do seu oitavo trabalho que naquele momento recebia o título de “R8”. Passou o tempo, a expectativa aumentou e, junto com ela, as cobranças. Com uma divulgação confusa, informações desencontradas e três singles lançados “American Oxygen”, “Four Five Seconds” e “Bitch Better Have My Money” – que não foram incluídos no disco – finalmente, ele foi disponibilizado em plataformas de streaming e download, após vazamento na rede.

O consenso popular de que o tempo é o melhor remédio serviu bem para a construção conceitual dessa nova fase de Rihanna. Depois de sete trabalhos consecutivos, lançados anualmente, esse foi o maior período de pausa entre seus discos. Não por acaso, esse disco estabelece um registro mais underground e introspectivo, brincando com texturas vocais e arranjos cuidadosamente desarrumados.

Muito dessa mudança de sonoridade deve-se às parcerias que a cantora agregou, incluindo rudimentos de uma atmosfera R&B mais experimental. Travis Scott produziu a faixa “Woo”, um dos pontos de desequilíbrio estético da obra. Não que isso seja ruim. Pelo contrário. A música, repleta de distorções e riffs hostis, é valorizada pelo timbre rouco que a cantora impõe. Já em “Higher”, dirigida por No ID, desponta como uma canção romântica com clara inspiração nas baladas dos anos 1950, mas esse falso brilhante contrasta com a letra libertina e abusada e, também, com os vocais despudoradamente lascivos e potentes (ou gritantes para os mais exigentes).

“Work” e “Kiss It Better” são as únicas faixas com cara de single. A primeira tem a participação de Drake e destaca-se por ter um apelo mais comercial, trazendo uma batida sensual guiada pela voz carregada de sofreguidão de Rihanna. A segunda, por sua vez, traz elementos do pop rock dos anos 1980, na qual a cantora soluça pela volta do grande amor de sua vida, com certeza uma das melhores faixas desse novo trabalho. Uma escolha equivocada, talvez, seja a versão da música “Same Old Mistakes” que é exatamente igual à original, da banda australiana Tame Impala, a única diferença, obviamente, é a presença da voz da cantora. Com isso, acaba transparecendo como uma opção desleixada.

Correndo pela tangente, “Desperado” e “Needed Me” funcionam como subsídio para ela mostrar um lado R&B aguçado e que, de certa forma, servem para reafirmar o seu lado gangsta – já tão explorad0. Evidentemente são faixas convenientes e que não acrescentam nenhuma novidade. Logo percebe-se que essas canções ficam como um porto seguro dentro das temáticas outrora abordadas. Fechando o disco, temos a introspectiva “Close To You”. Nessa canção, a cantora exibe uma fragilidade incomum, arrebatando inesperadamente para um poço de abnegação de si em virtude de um amor não correspondido.

Dentre as impressões deixadas pelo disco, fica evidente o esforço para apresentar um trabalho heterogêneo e mais encorpado. Rihanna não levantou bandeiras, nem se apressou em colocar mais um disco na sua discografia. Ela buscou um amadurecimento musical mais intuitivo e pragmático dentro das suas perspectivas. Ainda é muito cedo para dizer o quanto esse disco vai influenciar nos seus próximos trabalhos, porém é perceptível que as dualidades encontradas neste álbum apontam para uma musicalidade mais fulgente e audaciosa. De certo, abre uma fissura na sua carreira que poderá lhe render nuances musicais mais distintas e emblemáticas.

Ouça:

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