Crítica-Disco: Rashid canta nossa solidão e nossa injustiça em disco de estreia
NOTA8.5

Depois de três boas mixtapes o rapper Rashid chega ao seu primeiro álbum de estúdio, A Coragem da Luz. É um trabalho que busca uma voz dentro do rap e coloca o jovem MC como um dos mais promissores nomes de sua geração no rap.

Entre as maiores inquietações de Rashid estão a solidão trazida pelas redes sociais, a intolerância (machismo, racismo) cada vez mais forte embalados em um discurso de ódio, além das injustiças ainda cometidas no País aos negros e moradores das comunidades. Já tínhamos percebido essa voz lírica do rapper no lindo clipe e single “A Cena”, lançado ainda ano passado. Com um free jazz melancólico ao fundo ele questiona a violência policial e expõe a falta de saída dos jovens negros hoje nas favelas. “O que fizemos aos senhores, além de nascer com esta cor/ e de sorrir lindamente diante de nossa amiga, dor?”, canta Izzy Gordon em uma participação especial na canção.

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O mesmo tema retorna em outras faixas do disco, como “Ruaterapia”, com participação de Mano Brown e na cadenciada “Homem do Mundo”, com Criolo (que tem a linda linha “Quem pensa demais na chegada perde toda a beleza do caminho”). A mais pungente música dessa insatisfação em relação ao estado das coisas no Brasil é “Como Estamos?”, cuja letra questiona uma geração atual onde os pais enterram os filhos, desafiando a ordem natural das coisas. “Seu elitismo é toxina”, diz Rashid.

A música é um interlúdio para “Laranja Mecânica”, faixa que questiona as dificuldades de comunicação trazidas pela sociedade hiperconectada de hoje. Desconfio que Rashid seja um dos primeiros músicos de sua geração a trabalhar esse tema com tanta profundidade. O rapper transforma em rima o que o filósofo Zygmunt Baumann já denunciava no início dos anos 2000, que a tal “revolução tecnológica” estava afastando os seres humanas. Com participação de Xênia França, Rashid escreve: “O que fizeram contigo e aquilo que chamaste de coração? / Que formato de arquivo é preciso ter pra voltar a ser teu irmão? / Antes do mar secar, tu secou / Antes do mundo, o amor acabou / E o que restou… sem sinal de vida aqui”.

Esteticamente, A Coragem da Luz busca agregar as inovações trazidas por nomes recentes do rap, como Kendrick Lamar. É bastante presente a influência do jazz e do soul, sobretudo numa provável improvisação, no estilo do que ouvimos no clássico de Lamar To Pimp A Butterfly (2015). Rashid adiciona ainda bases muito brasileiras com pitadas de samba e funk. O R&B chega com força em “Segunda-Feira”, a mais autobiográfica do músico até agora.

É um nível de sofisticação acima da maioria das produções do rap no Brasil hoje. Com este disco de estreia, Rashid se aproxima de um movimento estético do rap que acontece hoje no mundo, presente em trabalhos do já citado Kendrick Lamar, Run The Jewels, Vince Staples, Earl Sweatshirt, Oddisee e outros. Este movimento, ainda em formação, pressupõe uma busca por inovação nas bases melódicas e uma rima mais engajada, ligada a questões bem próximas ao ambiente dos MCs.

E grande parte dessa proposta é visto neste disco de Rashid. O trabalho, no entanto, ainda não foi burilado o suficiente. A Coragem da Luz é também fruto das inquietações do rapper e sua necessidade em experimentar temas, rimas e bases. Tanta sede acabou dando origem a um trabalho irregular em alguns momentos. Mas até nesses momentos o disco é instigante. Pois, mesmo sem fazer um álbum uníssono, redondo, Rashid entregou um trabalho perturbador, incrivelmente atual e necessário para problematizar nossa época.

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