Foto: José de Holanda/Divulgação.

Foto: José de Holanda/Divulgação.

Mombojó reforça o experimentalismo e toca o passado no ótimo Alexandre

Por Alexandre Figueirôa

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Nem tudo que é mangue tem cheiro de lama. Mangue também é folhas e água fresca, vento que vai longe. E às vezes nem é mais mangue, é o mundo afora com sons que se misturam. Assim é o Mombojó banda com 13 anos de estrada e que agora nos presenteia com o ótimo álbum Alexandre – já disponível nas plataformas digitais e nas lojas.

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O título do disco vem de um teclado que pertencia a Samuel, ex-baixista da banda, e que disparava uma voz falando “are you sure?”, entendida pelo grupo como “alexandre”. A voz entrou em algumas composições no início da banda em 2001 e até se pensou em usar esse título no primeiro álbum, mas ele acabou se chamando Nadadenovo. Segundo os integrantes do Mombojó usá-lo agora foi uma forma de relembrar a atmosfera criativa da época para eles também muito presente no novo trabalho.

E realmente essa tem sido a tônica do Mombojó. O novo disco mostra o grupo mais uma vez com um trabalho aberto a experimentação e uma pegada electro indie com influências assumidas de Radiohead e Stereolab. Ele não nega, porém, uma relação vacinal com o manguebit, movimento de quem, na verdade, o Mombojó sempre foi uma voz ao mesmo tempo próxima pelo contexto geracional e dissonante nas escolhas musicais.

O novo álbum revela um aprimoramento do grupo, formado atualmente pelos irmãos Vicente e Marcelo Machado, Felipe S. e Chiquinho. No primeiro disco de 2004 a surpresa, em meio ao cenário musical pernambucano, foi o estilo pop da banda que não investia nas batidas regionais como a Nação Zumbi. Essa escolha, porém, não inviabilizou o reconhecimento e hoje o Mombojó sente-se livre até para incluir nos arranjos um toque nessa direção como em “Rebuliço”, música que abre o disco.

Em Alexandre pela primeira vez o grupo gravou com improvisos e programação de bateria eletrônica. Chama atenção ainda o fato dele não investir tanto nos instrumentos acústicos, como era visto em discos anteriores, e incrementar ainda mais o eletrônico, assim como voltar a usar cordas – a base da canção “Rebuliço” é um violão e na música “Cuidado, Perigo!” vemos um arranjo para violino do Pedro Mibielli.

Gravado no Recife, São Paulo, Fortaleza e masterizado em Londres, o disco conta com a colaboração e participação, entre outros, de China, Vitor Araújo, Buguinha Dub, Yuri Queiroga, o pessoal da Nação Zumbi e a cantora Céu, voz da faixa “Diz o Leão”. O destaque maior, no entanto, é para a participação especial da vocalista Laetitia Sadier, vocalista da banda franco-britânica Stereolab. O grupo a conheceu num show em São Paulo e ao ouvir um disco da Mombojó ela confessou o desejo de participar de um trabalho futuro. Os músicos então aproveitaram a deixa e enviaram para Laetitia uma música pronta e ela devolveu acrescentando letras e melodias novas. O resultado é “Summer Long”, uma das mais belas canções do disco.

Não resta dúvida que Alexandre já é um dos melhores lançamentos do ano. Suas canções trazem letras bem construídas onde se mesclam inquietações com a ordem mercantil do mundo – “Me Encantei por Rosário” – palavras contra o conformismo – “Diz o Leão” e “Rebuliço” – e a poesia das coisas singelas como esse verso de “Hortelã”: “ouço a chuva cair, trazendo amostras do céu. Tudo isso acompanhado por melodias inspiradas e uma sonoridade envolvente.

Fotos: Reprodução/Raul Luna.

Fotos: Reprodução/Raul Luna.

MOMBOJÓ
Alexandre
[slag/Som Livre, 2014]
[Recomendado]
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Nota: 8,5

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