Foto: Divulgação.

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Pin-up dark, segue celebrando a tristeza

Por Josafá Santana

Nos últimos tempos, o cenário pop tem nutrido um intercâmbio muito íntimo com artistas alternativos. Vários nomes que antes circulavam em uma cena mais restrita ao grande público têm despontado nos mais ouvidos e tocados de vários países. Grande parte disso deve-se à internet. Como fruto dessa abertura, temos Lana Del Rey, uma cantora que se vendeu como promessa do indie e galgou sucesso no mainstream. Ela, que se inseriu no cenário musical antes como viral do que como cantora, acaba de lançar seu mais novo disco Ultraviolence.

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Desde seu comentado disco de 2012, Born To Die, Lana trouxe para a cena pop uma música totalmente despretensiosa, nostálgica e depressiva. Flertando com as décadas 1950 e 60, a cantora consegue envolver com melodias psicodélicas e letras exageradamente dramáticas. Com o novo trabalho, a cantora segue compondo suas próprias canções e ecoando as mesmas temáticas dos seus antecessores.

Em “Cruel World”, música que abre o disco, a celebração da vida é reduzida a um vestido vermelho, uma garrafa de Bourbon e a festas; só falta a vontade de se alegrar com a batida morna dessa música. Em “Pretty When You Cry”, Lana Del Rey chora as pitangas por causa de um namorado viciado e que vive um relacionamento conturbado. Parece até um tributo aos eternizados pela sina dos 27.

As músicas que merecem destaque são “Ultraviolence” e “West Coast” – o primeiro single desse disco. A primeira se destaca pela inusitada narrativa de uma mulher que gosta de apanhar. “Ele me bateu e eu senti como um beijo/eu escuto sirenes/eu escuto violinos/ele me arrebatou com essa ultraviolência”. Feministas e direitos humanos contenham-se. Praticamente atiçando uma polêmica, Lana quer mostrar que não está nem aí para vocês. A segunda chama atenção pela ousadia de uma quebra rítmica que demonstra uma propriedade musical aguçada para poucos artistas. E também é a canção que consegue uma clareza e fluência superior em relação às demais do trabalho. Fechando o disco, “Florida Kilos” tem uma pegada mais acústica e tenta equilibrar a obra, trazendo um solícito frescor de atualidade.

De uma forma geral, o disco é uma obra consistente, mas nada que se compare com sua obra anterior. Ele traz uma Lana mais crua e pérfida que quer manter-se pela sua música retrô. Talvez o grande carma desse trabalho seja a insistência com as nuances de “strings”, uma maneira de tocar alguns instrumentos de forma que fiquem estridentes ou como se fossem ecos. O resultado é um disco cansado e repetitivo.

Apesar de Ultraviolence ser um álbum que transborda um arquétipo penoso, Lana segue impondo sua marca de pin-up dark e provando que recordar é viver, mesmo que seja celebrando a tristeza nossa de cada dia.

UltraviolenceLANA DEL REY
Ultraviolence
[Interscope, 2014]

Nota: 5,0

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