Juçara Marçal já pode ser considerada tranquilamente um dos principais nomes da música brasileira nos últimos anos. Seja no seu bom disco solo, seja no Metá Metá e nos vários projetos que participou, Juçara é voz marcante, criativa e presente em muita coisa boa que foi feita por aí. é um prolífico músico carioca com o trabalho calcado no experimentalismo de diversas escolas possíveis.

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O resultado desse encontro? Um dos melhores e mais simbólicos discos do ano. Deixo o release explicar o básico: Anganga são reinterpretações contemporâneas de vissungos recolhidos por Aires da Mata Machado Filho em São João da Chapada, município de Diamantina (MG) —, além de cantos do Congado Mineiro. Anganga é a entidade suprema do povo banto (“Anganga Nzambi”). A palavra consta do canto do congado “Grande Anganga Muquixe”, cujos versos indicam reverência àquele cuja “gunga não bambeia”, o mestre, o mais velho. Trata-se de uma expressão que diz respeito à reverência ao passado. Os “Cantos II”, “III”, “VI” e “VII” presentes no disco são vissungos (cantos de trabalho) recolhidos por Aires da Mata Machado Filho na década de 1920. O linguista registrou 65 partituras desses cantos no livro “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”.”

Em 1982, Aires autorizou a gravação de catorze deles no álbum O Canto dos Escravos, interpretados pelas vozes de Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela. “Eká” e “Taio” são composições de Cadu Tenório com a colaboração de .

O download gratuito está disponível aqui. Sendo o povo banto uma das principais etnias historicamente escravizadas no Brasil (último país das Américas a abolir a escravidão, sempre bom lembrar), o resgate do disco citado e o material base de referência, por si só, constituem uma importante contribuição para a música brasileira contemporânea, não raro branca e asséptica em demasia.

Mas, para nossa sorte, Juçara e Cadu são grandes músicos e a fusão das influências e do talento de ambos resulta num trabalho maduro, apocalíptico, recheado de um noise/drone/dark ambient de orgulhar desde a escola japonesa (Merzbow, Masonna, Kazumoto Endo, Boris, etc) até os brasileiros Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Dorival Caymmi.

Reunir tanta coisa diversa para criar uma sonoridade única é tarefa para poucos e Cadu se sai muitíssimo bem nessa missão. Seja na carta de intenções de “Eká”, seja na pegada quase Aphex Twin de “Canto VI” ou no harsh noise de “Canto II”, nas originais e nas reinterpretações, temos uma obra que ultrapassa seu próprio mérito sonoro. Anganga é brilhante tanto no experimentalismo de estúdio quanto em resgatar a imensurável influência da música e dos costumes negros no Brasil.

O noise dos dois, felizmente, não tem nada de cordial. É tão violento, torto, hostil, ritmado, paradoxal, convidativo e colérico como o próprio povo brasileiro.

cadu

Publicado originalmente no nosso parceiro, Movin’Up.

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