Crítica-Disco: Cantora trans Anohni une política e dance em disco de protesto
NOTA9

É bem relevante que um dos trabalhos mais importantes do ano tenha sido feito por uma mulher trans. Anohni estreia com Hopelessness, um disco que inova na música eletrônica ao mesmo tempo em que entrega diversos posicionamentos políticos importantes em tempos de uma escalada do conservadorismo.

O álbum se debruça sobre as contradições mais gritantes sobre o mundo democrático regido pelas grandes potências. Em “4 Degrees”, lançada como single antes do álbum cheio sair, a cantora fala a degradação do ambiente. Foi feita em solidariedade a Conferência do Clima em Paris, que gerou debates sobre a redução da emissão de gases pelos países. “Execution” trata da pena de morte nos EUA, expediente abandonado pela maioria dos países ocidentais, mas ainda usado pela justiça americana. “Execução / É um sonho americano”, canto Anohni.

Em “Obama”, a cantora não poderia ser mais direta. Fala da frustração de parte do eleitorado que esperava reformas e melhorias na luta por mais direitos civis. A música critica o aumento do uso de drones em missões militares, a espionagem pela NSA, o serviço de inteligência dos EUA e a perseguição ao delator Edward Snowden. Antes de deixar registrado em disco, a artista já tinha ida à público criticar diversos aspectos da política do presidente americano.

“Drone Bomb Me” é também eficaz ao atacar com afinco o uso de drones pelos militares americanos. A faixa ganhou um clipe estrelado pela modelo inglesa Naomi Campbell, que aparece chorando a morte de inocentes nessas guerras. A música é o segundo single do disco e traz uma base eletrônica que oscila entre a melancolia e o dance rasgado. Em entrevista à Pitchfork, Anohni disse que foi um processo revigorante transformar a raiva em algo belo.

Na forma, Anohni se uniu a dois dos produtores mais celebrados – e misteriosos – da música independente atual, Hudson Mohawke e Daniel Lopatin, mais conhecido como Oneohtrix Point Never. Eles ajudaram a cantora a levar sua voz grave e aveludada a paisagens sonoras contemporâneas.

Nascida Antony Hegarty, Anohni assumiu a transexualidade em 2014. Ficou conhecida ao lado de seu grupo Antony and The Jonsons, com quem lançou três discos. A estreia, I Am Bird Now, ganhou o Mercury Prize, o mais importante prêmio da música no Reino Unido. Neste ano tornou-se a primeira transex a ser indicada ao Oscar, pela canção original no filme Racing Extinction. Como não foi convidada a se apresentar na premiação, ela foi à público denunciar a transfobia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Anohni é o principal nome de uma geração que não pode mais ser ignorada, nem calada. E na estreia deste seu novo momento de vida, Hopelessness é disco ícone de um mundo urgente de mudanças. E a música da artista e seus produtores já apontam novos rumos na música eletrônica.

anohni

Foto Francesco Carrozzini/via OUT.

Sem mais artigos