COMO SE ZIGGY FOSSE CINZA
Biografia de Marc Spitz é um amontoado de dados e não faz jus ao que David Bowie ainda representa para a música pop. Para fãs persistentes

Por Ju Simon
Colaboração para a Revista O Grito!

Conhecer melhor a trajetória de um dos maiores astros do rock ainda vivos deveria ser um trabalho prazeroso. As 429 páginas do livro David Bowie – A Biografia, de Marc Spitz (Ed. Benvirá), no entanto, agradam somente aos fãs mais persistentes, que conseguem deixar de lado um texto ruim, mal traduzido e mal editado e curtir a viagem pela história de mais de 40 anos do camaleão.

Spitz traz em detalhes a produção de todos os álbuns de Bowie. As primeiras e fracassadas bandas, o medo de se tornar um ‘one-hit-wonder’ com “Space Oddity”, momentos sombrios desencadeados por uma crise familiar em The Man Who Sold The World.

A partir de 1971, com a gravação de Hunky Dory (considerado o pontapé inicial da genialidade do cantor), a biografia já não é mais só de Bowie e encontra a de outros monstros do gênero como John Lennon, Brian Eno e os influentes e influenciados Iggy Pop e Lou Reed.

Como não poderia ser diferente, a produção e o lançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars é a parte mais saborosa do livro. Os anos glitter, a atitude, os cabelos ganham páginas e mais páginas de depoimentos de quem ajudou a desenvolver um dos personagens mais criativos e intrigantes do rock.

A controversa bissexualidade de Bowie é altamente explorada ao longo do livro e, obviamente, não chega a qualquer conclusão. A biografia, aliás, enfatiza a androgenia e a sexualidade como “mistérios” altamente vendáveis na indústria musical dos anos 1970. Outros capítulos se dedicam ao envolvimento de Bowie com drogas – principalmente a cocaína – que, segundo o autor, foi parte “essencial” de Young Americans e Station To Station, até a Trilogia de Berlim com Low, Heroes e Lodger.

Os anos 80, com a new wave e a MTV e os anos 90, com a experimentação ainda mais intensa dos ritmos eletrônicos aparecem como momentos da consagração, mas já denunciam o recolhimento de Bowie. Sem nenhum novo trabalho ou aparição pública desde 2004, o roqueiro sumiu do mapa e Spitz, como todos, não sabe o motivo.

A parte informativa é, sem dúvida, muito rica. Como essas informações chegaram ao jornalista, no entanto, ficam embaralhadas entre entrevistas recentes, outras antigas e não creditadas (no melhor estilo recorte de jornal) e exaustivos “achismos”. Spitz não chegou a entrevistar Bowie e não obteve autorização para publicar a biografia, detalhe sequer mencionado.

O trabalho e a vida de Bowie se misturam ao que poderia ser a biografia do próprio autor. As considerações pessoais na introdução são normais e até desejáveis. Os bastidores da pesquisa valem um livro por si só. Já os flashbacks da vida do jornalista ao final de doze dos vinte e nove capítulos são totalmente dispensáveis.

Fora as falhas do autor, a tradução é muitas vezes capenga e a edição recheada de erros de grafia. As poucas fotos (28 para mais de 40 anos de carreira) estão todas em preto e branco e nas últimas páginas. Faz falta, também, um índice com nomes das músicas e dos álbuns, para que o livro torne-se uma obra de referência aos curiosos da música.

Com o universo de Bowie nas mãos, parece que faltou tempo para o fã declarado Spitz debruçar-se sobre a organização deste material. O resultado é um catatau cansativo e sem capricho. David Bowie merece muito mais do que um livro repleto de dados empilhados, sem a dedicação e a vibração que fizeram de sua carreira um marco do rock mundial.

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