REPÓRTER HIGH-TECH
Impecável na técnica, Tintim imaginado por Spielberg poderia ser qualquer outro herói de aventura

Por Paulo Floro

Difícil julgar uma obra adaptada comparando com os originais, sobretudo entre filmes e quadrinhos, mas é impossível não notar a discrepância gritante entre os livros de Tintim escritos e desenhados por Hergé e o filme As Aventuras de Tintim, dirigido por Steven Spielberg, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana. Com cenas escuras e eletrizantes cenas de ação, o visual não remete às histórias clássicas do personagem e acaba criando um novo herói, bem diferente do jornalista franco-belga das HQs.

Esse decalque feito por Spielberg pega de Tintim seus personagens e parte de seu universo, mas claramente vemos aqui outro herói, que poderia estar presenta em qualquer outro filme. É uma espécie de homenagem às avessas. Ao chegar em Hollywood, Tintim foi tão modificado que ficou quase irreconhecível. Isso não chega a ser um problema, mas com certeza irá incomodar os fãs dos quadrinhos.

E com toda liberdade permitida numa adaptação, Spielberg acaba fazendo uma homenagem, no final das contas, a si mesmo. Não faltam referências aos sucessos de aventura, como Tubarão e Jurassic Park, e mais ainda à Caçadores da Arca Perdida. Tintim acaba sendo uma versão franzina e culta de Indiana Jones. Veterano nas produções com muita ação e perseguição, o diretor conseguiu mais um sucesso dentro da sua fórmula. E, se o objetivo era atingir esse público, ele conseguiu cumprir o objetivo com êxito. Mas, com um material tão interessante nas mãos, o resultado final não deixa de ser decepcionante.

Jamie Bell (Tintim) e Andy Serkis (Hadockk) usando a captura de movimentos (Divulgação)

O roteiro baseia-se em três livros, incluindo O Segredo do Licorne, que dá nome ao longa e foi recentemente colocado nas livrarias pela Companhia das Letras. Quem dá vida ao protagonista é Jamie Bell, revelado no filme Billie Elliot (2000). Já o vilão Hackham tem voz de Daniel Craig. Na trama, Tintim precisa elucidar um mistério que levará a um enorme tesouro, sempre acompanhado do seu cão, Milu.

Feito em parceria com Peter Jackson, As Aventuras de Tintim vem sendo desenvolvido desde 2009 e faz parte do projeto de Spielberg em se manter à frente nas técnicas mais modernas de tecnologia aplicada à blockbusters. Neste caso, o “motion capture”, que capta os movimentos dos atores para depois transformar em animação. Avatar, King Kong e Planeta dos Macacos – A Origem já utilizaram, mas talvez este Tintim seja o mais sofisticado. Até o ator Andy Serkis, pioneiro no assunto foi chamado para dar vida ao Capitão Haddock. Mas, o resultado final é algo inóspito e sem alma.

O defeito fica por conta do 3D. A técnica não colabora com o colorido do filme por deixar tudo muito escuro. Sem falar que é um tipo de diversão excludente: quem usa óculos sofre o desconforto de usar um aparato pesado para poder assistir a um filme. Mas, esse é um tipo de debate que nem diz tanto sobre esse longa de Spielberg.

O maior problema é que falta a esse Tintim mais imaginação e menos técnica. No meio de tanto floreio, efeitos especiais, fotografia realista e técnicas impecáveis de animação e edição nervosa, não seria mal encontrar o bom e velho Tintim perdido no meio disso tudo.

AS AVENTURAS DE TINTIM – O SEGREDO DO LICORNE
Steven Spielberg
[The Adventures Of Tintim, EUA, 2011]
Paramount Pictures

Nota: 7,1

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