Colin Firth está brilhante no doloroso papel de lidar com o um novo cotidiano (foto: Divulgação)

“A VIDA É UM SUICÍDIO A LONGO PRAZO”
Quase como um editorial de moda, Single Man, encanta pela beleza visual e por retratar a força com que a solidão pode destruir a vida humana

Por Fernando de Albuquerque
Editor da Revista O Grito!, em Recife

O suicídio é algo difícil de se consubstanciar. Mesmo quando todas as despedidas já foram feitas. Mesmo quando todas as cartas foram escritas. E o momento final, ensaiado. Mesmo quando o escritório já se encontra vazio. Os papéis organizados, as contas pagas e a escolha do terno feita. A despedida dos melhores amigos realizada e o último desejo sexual finalmente concretizado na melhor forma de fazê-lo: o olhar. E mesmo assim, o tiro de misericórdia que damos a nós mesmos continua sendo difícil. Quase impossível.

É sobre o último dia de um suicida e os preparativos em torno de suas últimas resoluções que versa A Single Man que, mesmo depois de todo falatório, ainda dá o que render quando Direito de Amar, horrendo nome que ganhou na tradução brasileira, sobe nas telas.

O filme nos narra os motivos que levariam George Falconer (interpretado por Colin Firth em um de seus papeis mais comentados), um professor universiatário de literatura, a dar cabo de sua existência: o fim da felicidade ao lado de seu companheiro, Jim (Matheus Goode), e a extrema solidão a que foi recolhido vivendo numa casa de vidro. E cada acontecimento cotidiano lhe lembra a felicidade constante que viveu por 16 anos ao lado de Jim.

E A Single Man nos demonstra, a cada sequência, o quanto é dilacerante as consequências psicológicas da solidão ou do desgosto emocional. E o quão irreparável se torna o cotidiano defrontado à eventos trágicos.

O elenco, em todas as suas nuances, é o principal ponto forte do longa. Juliane Moore interpreta Charley, uma mulher extravagante e solitária que foi deixada pelo marido, pelo filho e que grita aos quatro ventos a necessidade de companhia à cada gole de gin. É dela uma das frases que resume a condição de George e de meio mundo de gente: “Eu tenho muitos amigos, mas nenhum deles precisa de mim”. E assim ela vaticina a grande missão societária do casamento e da própria paixão.

Palmas também para Kenny (interpretado Nicholas Hoult). Ele é um jovem aluno de inglês que segue os passos de George por motivos um tanto “misteriosos”. O personagem traz em si toda a sorte de pensamentos juvenis que depois de completar 30 anos todos nós julgamos desmedidos: o consumo irrestrito de álcool, drogas, atitudes inconsequentes e inseguras. E no final, Tom Ford, nos mostra que, mesmo quando bradamos que a juventude já não mais nos cabe ou nos é inadequada, é justamente ela que exibe a grande lição de que é possível começar de novo e renascer.

Quem rouba a cena contudo é Colin Firth. O inglês faz um George digno de todo tipo de aplauso e comemoração. A condição psicológica de George é ao mesmo tempo degradante e esperançosa. De uma forma que o contidiano já não sabe em suas aspirações e o trato diário passa a receber nada mais do que o cuidado necessário e o máximo de desatenção que pode ser dispendido.

George se levanta. Coloca o melhor terno em seu guarda-roupa. O nó windsor na gravata. A conversa trêmula com a empregada, a aula vazia na universidade, o encontro furtivo com um James Dean de araque em um supermercado, o amor da amiga Charley e, finalmente, o encontro com o sentido da vida, quando Kenny, dormindo com o máximo de candura demonstra que ainda é possível se apaixonar, ser feliz e lutar por algo.

E mesmo sobre tanta positividade, acontecimentos inesperados não param de acontecer e, de repente, tudo pode ir contra ao que se espera, principalmente quando já não há planos para a o próximo dia, não há planos para a próxima semana ou o mês que vem. Quando o cabelo cortado, a barba feita, as unhas aparadas, a casa arrumada e o testamento feito poupariam qualquer tipo de trabalho àqueles que encontrariam o corpo com a face estilhaçada por um tiro certeiro. E mesmo assim, a vida nos guarda saídas inexoráveis…

Mas não podemos deixar de salientar que A Single Man é bastante fértil em mensagens positivas e encorajadoras que devem ser consideradas. Mas temos de ter sempre em atenção que a vida é bastante imprevisível e que a qualquer momento toda a nossa existência pode ser alterada por uma caprichosa fatalidade.

DIREITO DE AMAR
Tom Ford
[A Single Man, EUA, 2009]

NOTA: 9,5

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