A NOVA ORDEM MUNDIAL
Para muita gente a indicação do filme de David Fincher, sobre um mundo em constante mutação é um equívoco. Será?

Por Alexandre Figueirôa
Editor da Revista O Grito!

Quando vai se aproximando o dia da entrega daquelas estatuetas douradas com pinta de ET, um frisson começa a percorrer todas as publicações dedicadas ao entretenimento. E por força das circunstâncias acabamos também sendo arrastados por esta onda invisível e pegajosa que tem como destino a mesma pergunta: quem vai ganhar o Oscar? E nos locais cuja predominância em termos de fruição cinematográfica os filmes made in Hollywood reinam absolutos só dando uma de doido para não se envolver com o fenômeno. E como não queremos deixar nossos leitores no limbo… vamos lá… falemos um pouco disto. Mas com uma condição: permitam-me agora comentar aqui apenas sobre um filme. Beleza? Qual? Hummmm… que tal A Rede Social?

Explico. Primeiro porque gosto do David Fincher, um diretor que já nos deu obras interessantes como 7 e Clube da Luta; segundo porque ando um pouco interessado em internet; e por último por ter ouvido e lido muitos comentários de que A Rede Social não tem envergadura para concorrer ao Oscar. Bom, primeiro um alerta para os que perdem tempo fazendo estas conjecturas de que o filme de Fincher não merecia ser indicado. Eles esquecem que a premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood é mais uma das máquinas promocionais da produção fílmica norte-americana. Sucessos de bilheteria e temas da atualidade com uma boa dose de questões simpáticas ao modelo de vida exportado pelos nossos caros amigos do hemisfério norte são tiros na mosca. O filme de Fincher entra na disputa com indicações de peso como as de Melhor Filme, Diretor, Ator, Montagem, Fotografia, entre outras, e tem como concorrente principal outro filme talhado para o Oscar: O Discurso do Rei.

Feitos estes esclarecimentos posso agora me deter um pouco mais sobre o filme em si ganhe ele estatuetas ou não no próximo dia 27 de fevereiro. Muita gente andou falando que A Rede Social era chato pelo bla bla bla interminável ou por ser mais uma produção a exaltar os gênios da web que de tempos em tempos saem do anonimato, ganham milhões de dólares e entram nas listas de colegas do Tio Patinhas, entre eles Bill Gates, Steven Jobs, e agora Mark Zuckerberg, criador do site de relacionamento Facebook e razão da existência do filme de Fincher. Podemos em parte até concordar com estas opiniões, mas devemos estar atentos ao fato que A Rede Social é uma adaptação do livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich, e que também certamente ganhou rios de dinheiro, pois foi logo alçado a condição de best-seller, como tudo que hoje envolve a web.

Aliás, talvez seja exatamente por isto que este novo trabalho de Fincher me chamou a atenção. Ele é o reflexo de uma realidade ao qual estamos enredados queiramos ou não. Tudo que diz respeito à indústria da informática nos atrai até mesmo para falarmos mal dela. Estou escrevendo este artigo num notebook, conectado na web, interrompendo a escrita de vez em quando para responder as mensagens de amigos virtuais, este texto depois será postado na rede e por aí vai. Isto sem contar os milhões de jovens que neste momento estão em diversas partes do mundo tentando criar softwares mirabolantes, jogos digitais irados, imaginando novas redes de usuários, e sonhando serem mais um Zuckerberg. Portanto, o sucesso do filme não é nenhuma surpresa, embora, convenhamos, ele tem lá seus aspectos positivos.

Clube da Luta e A Rede Social se pensarmos direitinho tem alguns pontos em comum. Fincher mais uma vez nos põe ao lado de personagens anônimos que, por obra de mecanismos inerentes ao contexto típico da sociedade contemporânea onde tudo é mercadoria e consumo, reagem com virulência às frustrações enfrentadas por causa deste contexto. Se em Clube da Luta ele nos colocou diante de uma realidade cuja violência emergia de corpos musculosos se confrontando e disputando o direito de bater nos seus semelhantes sem o mínimo pudor para saciar a sede de poder e se afirmar diferentes, em A Rede Social ele transfere o embate para as palavras e para ações aparente banais só que desta vez, claro, estamos diante de um acontecimento real.

Mark Zuckerberg, papel entregue no filme a Jesse Eisemberg, criou o que hoje é conhecido como Facebook a partir de uma brincadeira na universidade de Harvard, depois que levou um fora da namorada. O site deu certo e na sua trajetória de ascensão o tímido estudante com jeitão de nerd foi colhendo afetos e desafetos a partir do momento que o empreendimento deixou de ser uma birra juvenil e os dólares começaram a chover nas contas dos que estavam ao redor dele. Acusações de roubo de idéia, traições, golpes financeiros entram na trama e só mesmo quem é ingênuo para achar que o mundo dos negócios é uma filial de Nosso Lar.

David Fincher não é bobo e sabe tirar proveito deste mar de intrigas. Cinematograficamente não diria que A Rede Social é uma obra exuberante, mas tecnicamente é um trabalho bem acabado. A narrativa é arquitetada a partir de flashbacks e se desenvolve com uma estrutura típica de um thriller, embora a ação seja contida, um recurso que Fincher sabe usar com destreza a exemplo do excelente Zodíaco, por ele realizado em 2006 sobre uma série de assassinatos nunca resolvidos ocorrida em São Francisco. Ele explora com perfeição os confrontos que vão surgindo e cujos significados extrapolam os aparentes embates dos diálogos. O que emerge, na verdade, é uma série de conflitos entre um mundo de valores em constante mutação capaz de revelar a face real das disputas de uma nova ordem econômica cujas antigas regras parecem não fazer mais sentido.

Não conheço Zuckerberg pessoalmente para afirmar se ele é o que pintam. Talvez seu amigo e sócio brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield) possa ser mais taxativo, mas ele embolsou sua parte nas disputas judiciais e calou o bico. David Fincher, contudo, verdade seja dita, trata o criador do Facebook com admiração e o apresenta como um observador quase indiferente dos acontecimentos e cuja inocência pós-adolescente parece preservada, deixando para o criador do Napster Sean Parker (vivido por Justin Timberlake), que se torna parceiro de Zuckerberg, a tarefa de ser o gênio malvado e pilantra. Todavia, com Oscar ou sem Oscar, o Facebook já foi alçado à condição de fenômeno da web com seus 500 milhões de usuários e A Rede Social ilumina ainda mais a aura de Mark Zuckerberg como mito da pós-modernidade líquida, gasosa, ou como vocês internautas desejarem classificar o mundo de hoje.

A REDE SOCIAL
David Fincher
[The Social Network, EUA, 2010]

NOTA: 8,5

Indicações Oscar 2011
Melhor Filme
Melhor ator – Jesse Eisenberg
Melhor diretor – David Fincher
Melhor roteiro adaptado
Melhor fotografia – Jeff Cronenweth
Melhor trilha sonora
Melhor mixagem de som
Melhor edição

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