MAIS HUMANA
Tentando mostrar Thatcher como uma vovozinha solitária, A Dama de Ferro traz registro monótono e didático

Por Paulo Floro

Transformar Margaret Thatcher em uma vovozinha fofinha e senil foi o tom encontrado pelo filme A Dama de Ferro para cria empatia com um personagem tão antipático e odiado e amado na mesma intensidade. Meryl Streep empresta sua simpatia e humanidade à Margaret em dois momentos distintos de sua vida. Tentando ser isento, o longa é falado em primeira pessoa justamente para se esquivar de acusações de incoerências políticas ou panfletismo.

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Mas, o legado de Thatcher e sua importância para o destino da Europa na segunda metade do século 20 não são tão importantes quanto a história pessoal da primeira mulher a chegar ao poder no Reino Unido. É este o mote que a diretora Phyllida Lloyd (que já dirigiu Streep em Mamma Mia!) tenta seguir a maior parte do tempo. Como uma garota, filha de um quitandeiro e prefeito de uma cidadezinha, conseguiu o posto máximo de liderança do País em um universo machista dominado por homens. A produção decide contar a história em primeira pessoa, com a ministra já idosa e apresentando sinais de demência — ela vê o marido morto andando pela casa e reluta em se livrar de suas coisas.

E são muitos os bons momentos em A Dama de Ferro, estetica e narrativamente falando. Como quando é mostrado a jovem Thatcher (Alexandra Roach) vista de cima, perdida em um mar de homens engravatados. Ou ainda quando já idosa sai ao mercado para comprar leite, uma atitude prosaica de quem já foi uma das mulheres mais poderosas do mundo. O que Lloyd e o roteirista Abi Morgan não conseguem é manter esse tom subjetivo e conceitual, que faria bem à um filme com uma personagem tão difícil.

No lugar, a escolha foi pelo didatismo. Transformou o longa em uma defesa de Thatcher, uma mulher que precisou tomar decisões difíceis em momentos difíceis, e nem por isso deixou-se abater. Consegue assim, agradar à parcela mais óbvia de sua audiência, os neoliberais e os conservadores que a admiram independentemente de qualquer esforço de Meryl Streep. Apesar de querer focar em sua personalidade e na trajetória pessoal, o filme é claramente pró-Thatcher.

Momentos controversos ficam em aberto, e não são citados, como sua política anti-gay, as denúncias de corrupção de seu marido, sua intolerância e sua amizade com o ditador Augusto Pinochet. No entanto, o filme se esforça em mostrar sua postura dura contra a União Soviética (que lhe conferiu o apelido “dama de ferro”), seus embates contra os sindicatos de trabalhadores da Grã-Bretanha e o pulso firme na Guerra das Malvinas. É inquestionável que Thatcher teve importância na história das sociedades ocidentais desde o momento em que subiu ao poder. Isso fica claro ao sair da sala de exibição, gostemos ou não da ex-Primeira Ministra.

O que fica difícil de entender é como um filme tão monótomo, irregular e com ares de telefilme bem didático conseguiu uma atriz de peso como Meryl Streep. Sua interpretação cheia de nuances, detalhista e quase mediúnica ao mostrar Thatcher solitária e infeliz, afetada pela demência, lhe conferiu diversos prêmios. Mas, em um filme cuja única ambição é agradar aos admiradores da antiga ministra, não deixa de ser um desperdício.

A DAMA DE FERRO
Phyllida Lloyd
[The Iron Lady, ING, 2011]
Paris Filmes

Nota: 6.4

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