COMO DESTRUIR O UNIVERSO DC
por Paulo Floro

Geoff Johns e Phil Jimenez, os autores de Crise Infinita, tinham em mente elaborar a “crise” definitiva no universo DC. A mini-série em 7 partes, cria mais um evento catástrófico para redefinir (de novo) os rumos do universo. 20 anos depois da clássica saga Crise nas Infinitas Terras (1985) de Marv Wolffman e George Perez, que remodelou a editora, este ano, o mundo assiste novamente a mais uma série de mortes que pretende transformar a DC Comics e seus heróis em algo novo. Mas esta crise é diferente.

O Universo DC sempre precisou de uma crise. Seus super-heróis são quase centenários e suas vidas precisam ser atualizadas para novos tempos. Em 1985, a primeira crise serviu para pôr ordem na casa. Naquela época, várias realidades alternativas complicavam a vida de quem lia os gibis da DC. Existia a Terra 1, a Terra 2, Terra 3, etc. e cada herói tinha uma versão nestes mundos. A isso misturava-se as versões dos heróis convivendo ao mesmo tempo. A Liga da Justiça vivia na Terra 1 mas a Sociedade da Justiça na Terra 2. Confuso? Era mais ou menos por aí… Esta história de “várias realidades” que acabou se tornando uma bagunça era uma saída que a DC encontrou para que os autores pudessem exercer a criatividade livremente. Quando uma história modificava demais a origem ou a cronologia do personagem, bastava dizer que a história se passava em outra realidade e que não afetava em nada o rumo normal das histórias. Crise nas Infinitas Terras, portanto se tornou um marco nos quadrinhos pelo teor “impiedoso” ao expor tantas mortes de tantos super-heróis. A partir daí, um novo começo foi dado aos heróis, o que refletiu no aumento das vendas e no interesse renovado dos colecionadores. A crise seguinte, Zero Hora (1997), mostrava o enlouquecido Hal Jordan, o Lanterna Verde original ameaçando destruir as realidades como o vilão Parallax. Esta mini-série zerou as revistas e buscava atrair um público novo que não desejava compreender décadas de cronologia mas que conhecia os conceitos básicos de cada herói.


Superman segura a defunta Supermoça em Crise nas Infinitas Terras enquanto Parallax ameaça destruir o Universo de novo em Zero Hora.


Esta Crise Infinita é diferente. Ela na verdade é o ponto culminante de várias tramas e eventos que já se desenrolavam na DC Comics há um certo tempo. Se a primeira crise serviu para arrumar a cronologia, esta serve para trazer os personagens a um novo patamar dramático. A primeira crise tornou o universo coerente, tornou plausível conceitos como a idade dos heróis, eliminou as várias realidades. Esta, busca aproxima-los do mundo real, com traços humanos mais fortes.

Seres icônicos, quase míticos, os super-heróis da DC sempre beiraram a idealização, com moçinhas quase virgens e feitos heróicos inquestionáveis. Se por um lado a Marvel já explorava o lado humano e decadente de seus ídolos, um super-herói da DC era tudo que se esperava de um herói em sua forma mais clássica, acima de tudo e todos, lutando pela justiça. Não é a toa, quando autores questionavam esse conceito criavam clássicos, Batman O Cavaleiro das Trevas, todo o Universo Vertigo , Lanterna Verde de Neal Adams, entre outros. A Crise desse novo século colocou heróis contra herói e os fez questionar a própria consciência. Em 2003 o roteirista Brad Meltzer em Crise de Identidade, trouxe depressão, mortes e intrigas para o universo dos super-heróis. E este talvez seja o principal ponto da nova “crise”. Há várias histórias que remetem a essa nova fase do UDC, mas Crise de Identidade une todos esses pontos. Um vilão que ninguém conhece está destruindo familiares e parentes dos heróis e, sem um inimigo declarado, mostrou que mesmo com poderes, todo super se torna impotente um dia. Além disso, um segredo guardado por anos veia a tona nesta mini-série. Numa época conhecida como Era de Bronze um grupo de heróis fez uma lavagem cerebral no vilão Dr Luz após o mesmo ter estuprado Sue Dinby, a mulher do Homem-Elástico, que foi morta nessa saga. Batman agora busca respotas e isso esta afetando a Liga da Justiça e outros heróis. A Crise portanto, além de razões cronológicas, busca também escancarar a crise psicológica que afeta os heróis, que agora passam a questionar seus atos e a si próprios. A morte do Besouro Azul em Contagem Regressiva para Crise Infinita (leia abaixo), buscou abalar o leitor ao mesmo tempo em que o prepara para o que está por vir. Ao matar um personagem conhecido por suas séries de humor mostra que esta nova crise será surpreendente em todos os sentidos, e não só uma sucessão de catástrofes.

Mas muitos morrerão.

VOLTANDO AO INÍCIO
Após 1985 muitos autores como Grant Morrison (Homem-Animal), Jeph Loeb e sua “Zona Fantasma”, entre outros, desvirtuaram do conceito estipulado após a Crise nas Infinitas Terras e acabaram criando várias outras realidades novamente e trazendo de volta vários heróis mortos, nem sempre com uma explicação plausível. Esta Crise Infinita, escrita por Geoff Johns e desenhada por Phil Jimenez e publicada em 7 partes em 2005 nos EUA, permitiu que tudo fosse reformulado, criando uma nova era histórica para a DC Comics. Este grande evento foi arquitetado durante mais de 5 anos e coincide com o aniversário de 20 anos de Crise nas Infinitas Terras. O Universo será refeito, mas não só a cronologia. Os editores quiseram deixar bem claro que não se trata de uma saga “institucional” para corrigir uma bagunça. Tudo tem que parecer coerente, inclusive como os heróis reagem a essa tragédia.

No Brasil, a Panini começou a publicar Contagem Regressiva para Crise Infinita (Countdown to Infinite Crisis) com 6 mini-séries que revisitam cada aspecto do Universo DC, magia (Dia de Vingança), vilões (Vilões Reunidos), mundos alienígenas (Guerra Rann-Thanagar), intrigas e traições (Projeto OMAC). Além disso todas as edições de linha estão interligadas com a saga que será publicada em breve. Para se entender bem a Crise, sem precisar recorrer a nenhum SPOILER, é bom ler Crise nas Infinitas Terras (que ao contrário do que foi dito, têm muito a ver com a Crise Infinita), Dias de Formatura, Crise de Identidade e a edição especial Contagem Regressiva para Crise Infinita, que mostra a morte do Besouro Azul e prepara o terreno para a Crise. Nesta edição também conta com um cuidadoso trabalho de guia para se entender a saga e seu desenrolar, explicando cada evento que teve a ver com a Crise.

Como afirmou o editor Dan DiDio no prefácio de Contagem…, “este é o melhor momento para ser uma fã da DC.” Deixemos a Crise passar.

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