CRIME DELICADO
Beto Brant
[Brasil, 2005]

O diretor Beto Brant sempre fez filmes violentos. Mas não é apenas a violência factual, previsível, enfim decifrável, e sim uma estética que procura adentrar numa platéia de maneira agressiva, para mostrar um lado não muito belo de nossa sociedade e de seus personagens. Os filmes de Brant sempre insistiram nesse recorte da realidade, tornando-se atuais, contemporâneos. Cruelmente atuais, aliás. Como Invasor (2001) um dos grandes filmes brasileiros nos últimos anos e Ação entre amigos (1998).

Em Crime Delicado, Brant volta a trabalhar com Marco Ricca, que faz um papel de um crítico mordaz que se apaixona por uma musa de uma artista plástico ( Felipe Ehrenberg). Brant é mesmo um cineasta corajoso: Inês (Lilian Taublib) é uma deficiente física, tem uma perna amputada, e essas imagens causam um estranhamento tremendo. Como filmar isso sem um mínimo de escárnio ou condenscêndencia? O filme nos mostra Inês como uma persona feminina forte, que vai se desconstruindo com o passar da trama. O personagem de Ricca a estupra num momento de paixão intensa e esse crime acaba desvendando uma Inês bela, mas fraca, como uma musa muda e inerte. Uma excelente reflexão da arte como objeto passional, os personagens de Crime Delicado, são violentos em suas buscas por seus interesses. Uma atriz que tenta seduzir o crítico de teatro, o crítico que se apaixona pela musa alheia.

Não é um filme fácil. Mas Brant se tornou experiente nesse tipo de cinema. Crime Delicado se propõe a discutir a relação da arte ou da paixão como arte ou vice e versa, mas também registra recortes da vida urbana com seus tipos perdidos e desiludidos, perdidos em teorias e obsessões e loucuras. Para isso, Brant chamou o diretor Claudio Assis para uma ponta, onde tem uma briga apaixonada com sua mulher. Em outra cena dois travestis debatem o amor e o ofício. Esses interlúdios não fazem parte nem interferem na trama, mas servem para criar um ambiente específico ao autor e sua obra. Crime Delicado incomodou críticos paulistas, foi tido como apelativo ao filmar a deficiência de Inês de maneira bastante clara, sem cortes. Como chamamos isso no cinema? Honestidade ou provocação? [Paulo Floro]
NOTA :: 7,5

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