Corra (Foto: Soll Nejaim/ Divulgação)

Ao sabor do caos e com gosto de promessa
Por Júlia Veras, especial para O Grito!

selo-jan-grandes-espetaculos.pngUma encenação de proposta simples e bem executada. A idéia do grupo Magiluth de elaborar um espetáculo com base na teoria do caos se vale do básico para desenvolver o texto de Marcelo Oliveira. Uma boa iluminação, figurino simples e igual para todos, quatro bancos e alguns itens como tecidos, chupetas, chapéus são suficientes para contar as diversas histórias que constroem o espetáculo Corra.

O mote da peça, a teoria do caos, leva o grupo a construir uma encenação baseada em vários fragmentos, que lançados ao palco mostram como um simples acontecimento, a exemplo do atraso de uma mulher para o trabalho, pode mudar a vida de dezenas de pessoas. Eis o estopim da ação da primeira parte, na qual os episódios se desenrolam de forma desenfreada, e mostram como fatos corriqueiros podem chegar a ocasionar, quem sabe até, um ataque terrorista.

A segunda parte é rapidíssima, estruturada sobre um tema muito em voga, a mecanização e superficialização da sociedade contemporânea, cada vez mais mergulhada em comunicações via web. Mesmo explorando o óbvio – atores fazendo coreografia de robozinhos ao som de uma sonoplastia computadorizada – os meninos do Magiluth conseguem trabalhar um viés interessante e bem sacado desse assunto ao ironizar o quão imbecilizante pode se tornar uma conversa de msn. Nessa cena não há como não cair na risada: todo mundo já se viu em um momento assim.

A temática universal e contemporânea da teoria do caos, que vai ao extremo na primeira parte, fica um pouco diluída na terceira. Mas nesse ponto, a encenação ganha em lirismo, em cenas de uma poesia bonita de se ver, como as do romance de Pierre e Manga Rosa, personagens principais desse último episódio.

De forma geral, as atuações se mostram corretas, e o texto de Marcelo e sua dramatização convencem o espectador. Embora em alguns momentos eles acabem por cair em um ou outro clichê do assunto ou as cenas se tornem um pouco atropeladas, outros detalhes interessantes – geralmente os cômicos – acabam por se sobressair e garantem a atenção do espectador. A iluminação também merece citação e se impõe em situações como a sinestésica cena inicial, a jogatina, e novamente o namoro de Pierre e Manga Rosa.

Mas talvez o ponto mais importante a se destacar no espetáculo se refira à promessa que ele parece gerar em si. O Magiluth é formado por alunos da UFPE, e é interessante que essa nova geração venha imbuída de desejo, disposição e boas idéias.

Recentemente, a montagem arrebatou três prêmios na Mostra Universitária do Rio Cena Contemporânea: iluminação (Pedro Vilela), ator (Marcelo Oliveira) e terceiro melhor espetáculo. Recebeu também indicações nas categorias sonoplastia, figurino e direção. Neste último caso, Marcelo se configura como um nome de futuro: ser autor, diretor e ainda atuar não é das coisas mais fáceis, tanto do ponto de vista da execução pragmática quanto da própria coragem de dar a cara a bater.

Ponto para o rapaz, ponto para o grupo. Conseguiram elaborar um espetáculo honesto, que apesar de algumas derrapadas, consegue acontecer com desenvoltura. Eles ainda têm muito o que crescer: que bom que seja assim.

* Júlia Veras é jornalista

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