Álbum faz retrato cruel e honesto de Copacabana, mas tropeça em trama policial
Por Paulo Floro

COPACABANA
Lobo (texto) e Odyr (arte)
[Desiderata, 233 págs, R$39,90]

A fauna dos submundos de Copacabana já foi retratado em inúmeras obras da cultura popular, do cinema a Literatura, talvez por isso, a força de uma inédita crônica em quadrinhos deste universo tenha recebido tanta repercussão. Copacabana, de Lobo e Odyr, depois de muito atraso chega às livrarias pela editora Desiderata.

Assim como outras obras que tem o bairro carioca como cenário ou mote criativo, a predileção é pela sarjeta, um olhar viciado, baseado em sexo, drogas e amores mal-resolvidos. A abordagem é antiga nas literaturas que tratam de um cotidiano carioca que não é exibido em produções da Globo. Se no cinema, essa premissa gerou exemplos célebres, mas nas HQ’s, este cotidiano urbano ainda é pobre em retratação.

Mas não é só uma espécie de pioneirismo que sustenta o livro. O desenho de Odyr, quase um estreante no mercado de quadrinhos (desenhou história na extinta revista Mosh e na Graffiti 76% Quadrinhos) é o grande destaque aqui. Quase como uma litogravura ou um rabisco feito a carvão vegetal, suas ilustrações despertam uma reação quase sinestésica, despertando os odores de uma Copacabana cheia de sexo sujo.

O sexo que permeia todo o álbum é presente mais no desenho flambado e sujo de Odyr do que o texto de Lobo, que nem sempre consegue alcançar um nível de realidade nas falas dos personagens.Odyr parece trabalhar numa espécie de tour de force, sem correções, com pressa e uma dose de paixão que não permite um retorno ao que foi anteriormente despejado no papel. É um trabalho sem direito a ressaca de qualquer tipo.

A trama apimenta o cotidiano da prostituta Diana com doses de romance policial barato, misturado com análise antropológica crua da situação das profissionais do sexo. Este recorte ao mesmo tempo cruel e honesto deixaria orgulhoso cineastas como Cláudio Assis (de Baixio das Bestas e Amarelo Manga). Por vezes, a proposta do livro parece se perder com a série de reviravoltas almodovorianas envolvendo assassinatos, roubo e traições, que quase compromete o impacto inicial da obra. Um olhar mais aprofundado de Diana, seu trabalho e sua relação com Copacabana talvez trouxesse mais possibilidades criativas, além da narrativa convencional.

Fica um pouco a impressão de que o bairro poderia servir mais do que cenário para uma intricada trama. Se a proposta não era explorar os limites afetivos de Copacabana, com sua geografia pobre e decadente escondida entre os clichês, ao menos essa lacuna foi sentida durante a leitura.

Copacabana é, até agora, o lançamento nacional mais importante do ano. Por sua proposta inovadora nos temas, na arte e no que ele pode significar para futuros trabalhos nas HQ’s.

NOTA: 8,5

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