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IAN CURTIS, O MITO
Chega ao Brasil a premiada biografia sobre o mais enigmático dos ídolos do rock
Por Rafael Dias

“Nós construímos um quarto na nossa casa para a composição das futuras obras-primas de Ian. Ele pintou as paredes de azul-anil, o tapete de azul; a cadeira, azul, assim como as cortinas”. Nesse excerto do livro Carícias Distantes (esgotado no Brasil), de 1995, a viúva Deborah Curtis nota um traço essencial da personalidade depressiva e genial de seu ex-marido Ian Curtis, letrista e vocalista da banda de pós-punk Joy Division, que se enforcou com apenas 23 anos de idade na trágica manhã do dia 18 de maio de 1980. Se nascido nos EUA, ele decerto seria um Chet Baker com suas doses cavalares de tristeza e dor ao som de blues. Como nasceu sob a poeira química da industrial Manchester dos anos 70, foi ser líder de um das bandas mais emblemáticas (e pungentes) do Reino Unido.

Ian Kevin Curtis morreu há quase três décadas, mas sua imagem repercute como um efeito latente até hoje. Sua vida, tão brilhante quanto instantânea, serve de inspiração para dois filmes que chegam às telonas. O primeiro, Control – A História de Ian Curtis, ficção dirigida pelo fotógrafo holandês Anton Corbijn, que estréia esta semana nas salas brasileiras, mostra o anti-herói do rock em sua faceta humana frágil e instável, em uma bela intensidade narrativa. O outro é o documentário Joy Division, do britânico Grant Gee, que reforça o mito Curtis. Em comum, os trabalhos procuram desvendar a alma incômoda e sagaz de um poeta que se entregou a fluidez de seus próprios vãos – perdeu o controle – e não voltou mais. Porém deixou letras de uma sensibilidade intangível.

Baseado no livro de Deborah Curtis, Control passa uma visão doméstica de Ian Curtis, da sua adolescência até à juventude à frente da banda. Isso tem seu lado favorável à medida que permite que os expectadores tenham uma visão intestina da história, a porção intimista, do pai e marido Ian. Por outro, é improvável não interpretar a história como uma versão parcial a partir do relato de apenas uma fonte, o que prejudica, por exemplo, a conclusão do que realmente motivou Ian a cometer o suicídio. No filme, o alcoolismo, o vício do cigarro e os ataques epilépticos são mais vilanizados que o caso extraconjugal vivido por Ian com a jornalista belga Annik Honoré (Alexandra Maria Lara). A verdade é que o suicídio é, ainda, uma grande incógnita. Na véspera da turnê aos EUA, Ian se mata em casa, sem alarde, ouvindo o LP Idiot, de Iggy Pop.

O filme apresenta, no entanto, uma versão bastante verossímel de Ian Curtis, interpretada por Sam Riley. Misantropo, tímido e recatado, casa-se aos 19 anos com Deborah Woodruff (Samantha Morton), com quem tem uma filha. A vida a dois e amor que nutrem um pelo outro são ameaçados pela viagens constantes e a dedicação intensa de Ian ao Joy Division, que parece se tornar maior do que ele próprio. Numa turnê, conhece a jornalista Annik Honoré, com quem vive uma paixão às escondidas. Dividido e dilacerado pelos dois amores, Ian escreveria o single de maior sucesso do grupo, “Love Will Tear Us Apart”. Misto de trama romântica e biografia de rock, Control evidencia a vida de um homem preso em suas próprias angústias e incapaz de lidar com a pressão externa.

A direção de arte e a narrativa delicada são os elementos fortes do filme de estréia de Anton Corbijn, fotógrafo conhecido no meio musical por retratar bandas como U2, R.E.M. e Depeche Mode. A produção, cujo lançamento ocorreu em Cannes ano passado (onde barganhou três prêmios), vem colhendo uma carreira de elogios em profusão. E não é para menos. Filmado em preto e branco, a obra é uma bela reconstituição de um período cruciante da história da música, que consegue captar a atmosfera embotada de Manchester e projetar a angústia psicológica de um de seus bardos, os sonhos e desvarios de Ian em cima do palco, com seus movimentos de braço e o transe catártico.

A intensa interpretação do ator Sam Riley dá um frescor e leveza à paisagem densa e sufocante. É impressionante a semelhança física e o mimetismo com que Riley encarna a persona Curtis. Também empresta mais fidedignidade ao filme o fato de que ator e banda tocam ao vivo na maioria das músicas, prescindindo o uso de playbacks (ele é inclusive vocalista da banda 10.000 Things). A trilha sonora, aliás, é uma preciosidade. Além das interpretações de Sam Riley, há músicas e versões de New Order, David Bowie, Iggy Pop, Sex Pistols e Buzzcocks. É uma obra tocante não só para os fãs mais experientes.

NOTA: 9,0.

CONTROL – A HISTÓRIA DE IAN CURTIS
Anton Corbijn
[Control, Reino Unido/Austrália, 2007]

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