Conceição (Foto: Hans von Manteuffel)

Festa no morro: a festa nos palcos
Por Fernando de Albuquerque

selo-jan-grandes-espetaculos.pngAristóteles conceituou Catarse como a purificação das almas por meio da descarga emocional provocada por um drama. E aí podemos nos lembrar de dois exemplos marcantes como o de Édipo Rei, que dá partida a um complexo imbróglio com o rei de Tebas e ao fim se cega e se exila. Ou, uma história mais próxima de todos, Romeu e Julieta, numa releitura que Shakespeare faz da tragédia, onde dois jovens, filhos de aristocratas florenses, acabam vitimados pelas desmedidas do amor. E a referência vem bem a calhar quando se assiste ao espetáculo Conceição, do Grupo Experimental de Dança. Nele o deleite visual, cênico e dramático são inevitáveis. A respeitosa consternação com o simbolismo máximo da fé consegue subverter até mesmo os mais céticos.

A apresentação é resultado da vivência da coreógrafa, Mônica Lira, bailarinos-criadores e dois pesquisadores durante a Festa do Morro da Conceição que acontece sempre no dia oito de dezembro, no morro homônimo. O Experimental fez pesquisas para metaforizar em movimentos toda energia que a festa consubstancia anualmente: uma torrente de religiosidade e pulsação metafísica.

Um observador pouco atento diria que é um espetáculo que versa em primeiro plano sobre o feminino, ou mesmo questões de gênero. Ledo engano. Esses eixos se tornam em subtemas de uma profunda discussão sobre os sacrifícios realizados em nome da fé, as relações entre o humano e o divino. Tudo traduzido no corpo dos bailarinos, em um gestual que permite o espectador conquistar seu próprio caminho reflexivo durante a encenação.

A polissemia de signos da Festa do Morro (um espaço onde diversos tipos de manifestações convergem para um mesmo intuito: a busca da cura, pagar promessas, a especulação acerca de um futuro melhor) são traduzidos de forma uníssona pelos bailarinos que dão partida ao espetáculo ainda com as luzes acessas. A platéia é surpreendida quando dançarinos distribuem fotos ampliadas e se movem de forma lenta, com passos fortes e ora prenunciam uma agressiva composição coreográfica.

Na apresentação Ramón Milanez, Daniel Silva, Helijane Rocha, Renata Muniz e Maria Agrelli estréiam ao lado da maturidade cênica da própria Mônica e da bailarina Ana Emília Freire, por exemplo. Nesse contexto o corpo de baile mescla tempo e experiências, equilíbrio e desequilíbrio, força e fraqueza para destacar o misticismo da Festa do Morro.

Uma das representações mais bem resolvidas da apresentação está no figurino e cenário que funde imagens de Nossas Senhoras e Iemanjás numa celebração do divino, do sagrado e do sensual mistério que a religiosidade perfigura em tantas mulheres, mesmo as mais comuns.

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