A DELICADEZA DA FANTASIA É A NOSSA MAIOR ARMA
Com muitas peculiaridades filme que retrata o fim da ditadura romena lança mão de alternativas não tão clássicas para fazer um típico filme de comunidade

Distribuído pela Pandora Filmes, Como Eu Festejei o Fim do Mundo, é um filme de peculiaridades. A primeira delas diz respeito ao próprio título. Se tratando de uma produção binacional, uma dobradinha cool entre França e Romênia, o nome original vagueia entre a sopa de letras balcânica com “Cum Mi-am Petrecut Sfarsitul Lumi” e o excesso de vogais e acentos latino em “Comment J’ai Fêté La Fin Du Monde”. A segunda é referente ao próprio atraso do filme para chegar à exibição no Brasil. Finalizado em 2006 só agora ele chega às telonas tupiniquins e em apenas uma única sala: a paulista HSBC Belas Artes. Mas vale a dica de entrar no Mininova. Tem versões pra todos os gostos boiando no site.

Bem, o filme narra a história de Eva Matei (aqui interpretada por Doroteea Petre), uma espécie de rebelde por acaso e que, depois de romper o namoro com o filho de um policial e sair do Juventude Comunista, é transferida para uma escola técnica (uma espécie de reformatório com estilinho de submundo europeu). Lá ela encontra um rapaz disposto a fugir do país. Sua família, que vive a mais sangreta das coerções, recebe ajuda financeira de um policial mal visto nas redondezas de sua casa. Enquanto isso, Lali, o irmão caçula de Eva, fabrica planos pra lá de mirabolantes e imagina sonhos impossíveis para sobreviver ao medo que os cerca.

A direção de Catalin Mitulescup foi mais que acertada. Ao invés de colocar a câmera pairando nos olhos de Lali e descambando para uma representação onírica da própria vida, ele escolhe a narrativa direta, seca e econômica que substitui a alegria exultante, teatral e fake em que poucas emoções são demonstradas, na qual os personagens se contém, talvez, com temor da ditadura que paira sobre suas cabeças e dos espiões que estão sempre à espreita.

Assim Mituslescu nos entrega um típico filme de comunidade, onde o grupo social determinado atravessa em conjunto as trasnformações que o meio impõe, mas isso subvertendo a fórmula clássica à medida que individualiza a protagonista dos demais. E completamente desajustada e deslocada, a heroína de Como Festejei o Fim do Mundo se enrola em seu próprio orgulho ferido, no ódio e na angústia contra as políticas do medo e a repercussão que as políticas do toma-lá-dá-cá governamentais fazem os cidadãos agirem do mesmo modo em suas vidas privadas. E seu único interlocutor é Lali, uma pequena criança que recita um poema para Ceauscu, o ditador Romeno a fim de mata-lo. E é essa delicadeza que faz com que o levante maior aconteça e chegue ao fim a ditadura.

COMO EU FESTEJEI O FIM DO MUNDO
Catalin Mitulescu
[França/Romênia, 2006]

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